Uma Viagem no Tempo com Keith Richards

texto: Amanda Cipullo

“Esse foi o começo dos Rolling Stones” – diz enquanto segura os vinis Rockin at the Hops e  The Best of Muddy Waters .
“(…) Peguei o trem matinal para a escola de artes. Calhou de eu entrar no vagão em que Mick tinha entrado, e eu não o via há anos. Então, notei no que ele tinha enfiado debaixo do braço, assim: ‘ Caramba! Chuck Berry…O que é isso, cara?”. E eu falei: ‘chega mais!’.
Pensei que eu fosse o único do sudeste da Inglaterra que conhecia essas coisas, sabe? Então, quando descemos do trem, fizemos um trato. Foi como os Stones começaram, por causa desses dois álbuns. É isso.”

Se tem uma coisa que não mudou ao longo dos anos, é o fato de que a história do rock é a história de quem ouve rock. E Blues, é claro. O breve relato acima é de Keith Richards e está presente no documentário Keith Richards: under the influence, mais um longa documental maravilhoso, que o Netflix nos deu de presente.

Apesar de ter sido lançado em 2015, eu só o descobri pouco antes do final do ano passado. E deixei ali na minha lista de “coisas interessantes para ver”. No entanto, quando finalmente apertei o play, fiquei me perguntando porque tinha esperado tanto tempo. Aí, na madrugada do dia 20 para 21, resolvi reassistir como presente de aniversário. Foi ainda melhor.

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A forma como Keith narra sua trajetória musical, desde as influência passadas de mãe para filho, até suas próprias descobertas, que aconteciam ao mesmo tempo em que, do outro lado do Atlântico, surgia o rock n’ roll,  são de tirar o fôlego. E eu, que sempre tive grande respeito, mas nunca fui “tão louca assim” por Stones, comecei a me sentir mais e mais apaixonada.

Falar de rock sem falar de Rolling Stones é quase impossível. Goste você ou não, foram esses os caras que contribuíram para que a coisa toda fervesse mais. Além disso, foram os responsáveis direitos por espalharem a música negra norte-americana pelo mundo. É, os ingleses branquelos não só honram seus ídolos na maneira de se fazer música, mas também reabriram as portas para os gigantes do blues que estavam esquecidos.

Acontece que depois de tanto tempo sob a luz holofotes, eu tinha a sensação que não havia mais nada que pudesse ser dito sobre eles. Nós já sabíamos tudo. Faz parte do nosso DNA saber dessas coisas. Então, fui apresentada a versão de Richards sobre coisa toda: da paixão pelo blues ao flerte com o reggae. E, de tudo, o que mais impressiona e tira o nosso fôlego não são as histórias, mas sim a forma como ele nos conta. Ou melhor: paixão com a qual nos conta. É contagiante. Faz com que a gente se re-apaixone de novo.

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Por cerca de 1h20,  Keith fala sobre tudo o que criou e fortaleceu sua identidade musical. Narra o primeiro encontro com Muddy Waters e os bastidores de sua participação no filme Chuck Berry: o mito do rock. Relata, como se fosse ontem, a sensação de estar pela primeira vez que esteve em Nova York e, também, descreve o choque de ter presenciar os últimos suspiros das leis de segregação, que impediam negros e brancos se sentarem nos mesmo bancos de ônibus, usarem os mesmos banheiros e outros absurdo do tipo. Em meio a sua narrativa, é como se, involuntariamente, fôssemos transportado pelo tempo e pelo espaço. Vivemos tudo aquilo com ele. E a história passa a ser nossa também.

Ao terminar de assistir, fiquei com uma sensação bem parecida com a que tive ao ouvir Blue and Lonesome – último álbum de estúdio dos Stones, no qual fazem um tributo aos seus ídolos do blues e, cuja música título faz referência a canção de Little Walter. É o que ouço agora, enquanto escrevo e vejo o cigarro queimando no cinzeiro. E ao fazer isso, ou outras pequenas coisas, como colocar mais um vinil para tocar, é como se revivesse todas essas histórias. Essas histórias que nunca vivi de verdade, mas estão registradas ali, naquele som. Nas vozes e nas letras. Nas guitarras que falam e choram. E só por isso se tornam reais e palpáveis. Tornam-se minhas também.

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Como diz Keith, logo nos primeiros minutos do longa, enquanto se delicia com Little Walter cantando Blue and Lonesome: “para mim, a música é o centro de tudo. É uma coisa que une as pessoas ao longo dos séculos e milênios. É indefinível. Nunca conseguirão defini-la, mas é divertido explorar”.

E eu só fico aqui pensando que tomara que seja verdade essa lenda popular de o velho Keith sobreviverá até a um apocalipse zumbi. Porra, nós ainda precisamos muito dele nesse mundo!

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