O Rock está Morrendo ou Você está Matando o Rock?

Texto: Amanda Cipullo

Hoje faz um ano que Lemmy Kilmister morreu. Pouco tempo depois, chegou o ano novo – que agora é quase ano velho – e durante os 12 meses de 2016, tanta gente nos deixou que eu já até perdi a conta: David Bowie, Jimmy Bain, Paul Kantner, Glenn Frey, Maurice White, Keith Emerson, Merle Haggard, Guy Clark, Nick Menza, Bernie Worrell, Prince, Leon Russell, Leonard Cohen, Sharon Jones…

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E, é claro, como de costume, culparam o ano. Culparam o horóscopo. Culparam a internet. Muitos decretaram que o rock  havia morrido. Outros, seguram o rosário na mão e disseram estar esperando pelos últimos suspiros dele, o Rock.

Nesse mesmo ano, no entanto, várias bandas e artistas lançaram álbuns novos.  Sabbath e Guns caíram na estrada com suas formações – quase – originais. Tivemos dezenas de shows nacionais e internacionais para todos os gostos e estilos. Tivemos um festival inteiramente dedicado a bandas de metal nacionais (Hell in Rio). Os Stones lançaram o Blue and Lonesome, álbum com releituras de clássicos do blues (puta trampo, diga-se de passagem). Dylan ganhou Nobel de Literatura. E ainda aconteceu muito mais coisa boa, que talvez tenha me escapado agora. Se você parar para pensar, o ano só foi péssimo para quem ficou parado no tempo. E em meio a tudo isso, fico com a impressão de que a maioria dos reclamões de plantão está apenas tentando achar um culpado que explique o porquê de terem desistido da música. O Rock só está morrendo para quem o deixa morrer.

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Agora, para desmistificar todas as suposições que maltratam tanto o nosso coração rock n’ roller, sugiro que tenhamos calma, ok? Então vamos por partes, Jack!

Não se faz mais música como antigamente ou não se escuta mais música como antigamente?
Quando foi a última vez que você escutou um disco inteiro?
Quando meu pai tinha a minha idade, a única forma possível de se ouvir música era no carro (com uma k7) ou em casa. Hoje, pode-se ouvir qualquer coisa, em qualquer lugar. E as pessoas até o fazem, é claro. Tem gente que não vive sem um fone de ouvido. Mas quantos estão realmente ouvindo e quantos estão apenas colocando um som de plano de fundo? Se a grande maioria mal encontra tempo para ouvir verdadeiramente as bandas e artistas que gostam, como vão ouvir aquilo que nem conhecem? Como que é possível descobrir algo assim?

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“Mas as bandas e os artistas atuais são ruins. O Rock já não é o mesmo… mimimi”
Sempre digo que nosso padrão de comparação é tão grande, que dificilmente algo nos surpreende. E quando o faz, a surpresa vem cheia de senões. Amy Winehouse é o melhor exemplo disso (pode chorar, pode sofrer, pode até não gostar, mas a mina era boa pra cacete, amigo). Amy foi uma das grandes vozes dos últimos anos. Era boa e era autêntica. Trouxe para a música elementos embasados em suas raízes de rhythim n’ blues e soul – que não traiam a veia musical de seus ídolos, mas também refletiam o tempo em que vivia. Como dizem alguns fazia música como antigamente. Só que hoje (ontem, na verdade). Como, então, pode-se dizer que a qualidade musical está decaído? Ou você já ouviu todas as músicas que estão tocando em todas as partes do mundo?

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A gente desaprendeu a ouvir e a divulgar os nossos trabalhos artísticos.
Sim, acredito e comprovo diariamente que tem muita gente boa fazendo música por ai, no entanto, vejo que ainda não entendemos bem o que é ser um amante da música – ou um músico – no século XXI. Ainda não sabemos como, musicalmente, expressar o que é esse período tão doido e conturbado. Muitas vezes, tudo soa apenas como repetição.  E quem tá fazendo coisa boa, raramente sabe se divulgar. Marcar todos os amigos em uma publicação nas redes sociais e fazer textão dizendo que devemos parar de gastar dinheiro em shows grandes e focalizar nas bandas menores, não é argumento de divulgação. E nem atrativo. Só é chato, amigos! 

E, na televisão ainda existem dezenas de programas de calouros, que prometem transformar músicos em estrelas, com direito a estádios lotados, fãs gritando e arremessando cuecas e calcinhas para o palco. Esse ainda é o sonho de muita gente que conheço: vender milhões, aparecer no Faustão, ser trilha sonora da novela das 21h. Sério mesmo? Super sério! Reclama-se do tal do “sistema”, mas tudo o que querem é fazer parte dele. E cadê o Rock n’ Roll nisso tudo?

Sucesso, aqui no Brasil, é sinônimo de fama, mas fama não é sinônimo de qualidade. Para ser famoso, tem que  estar no padrão. E todo mundo quer ser famoso. Todo mundo quer estar no padrão. Como resultado, temos o rock “bunda mole” que alguns produzem… Mas isso não quer dizer que tudo o que é produzido hoje é “bunda mole” e ruim. Não mesmo! Só que, geralmente, esses não são os mais famosos. Não estão tocando nas rádios. Esses são o que tornam seus trabalhos atrativos. E tem público. E, aos poucos, ganham dinheiro e espaço.

E a culpa de os bons não serem conhecidos é “da mídia nojenta, que se vende pra qualquer música chiclete”? Não só! Se você não conhece os caras e as minas boas, que estão tocando por ai, é porque não procurou direito – pare de ser preguiçoso(a), pare de tentar achar culpados! Temos ferramentas para ouvir música de qualquer parte do mundo. Mas quem as usa?

Se a forma de consumir música mudou tanto, então, é óbvio que as bandas e artistas tem que achar novas maneiras para alcançar seu público. Hoje, o maior desafio não é mais conseguir um contrato com uma gravadora, mas sim tornar a música acessível – e ganhar dinheiro com isso. A missão do músico é levar seu trabalho para as outras pessoas. É colocar na música suas referências, sua visão de mundo… Sua alma. E quando isso acontece, vemos trabalhos realmente revolucionários. Esses são os artistas que entram pra história. Mas quem está disposto a ser revolucionário e quem só quer aumentar os likes no Facebook?

Às vezes a gente fica tão preso ao passado, que não conseguem olhar para frente…
Vejo muita banda boa, com ótimos músicos, no entanto, ainda extremamente apegados ao que seus ídolos fizeram. É óbvio que referência é a base de tudo, mas não é só isso. Tem que ir além! Muitos artistas não conseguem transpor suas influências para o presente. Muitos amantes do rock não tem capacidade de se arriscarem em outras praias. Apenas repetem. Querem reviver os anos 1980/ 1970 / 1960. Pouco querem criar coisas novas. Ouvir coisas novas. Agora, pense bem, imagina só se o Black Sabbath quisesse ser uma espécie de “novos Beatles”? Ou se o Lemmy quisesse que sua música fosse uma releitura de Hendrix? Imagina só se a Rita Lee quisesse ser menina bem aceita e comportada no começo da carreira? Não parece absurdo? E por que ainda há os que querem ser e ouvir os novos X, se podemos descobrir – e ser – os únicos Y?

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 Max Kolesne, certa vez, disse-me em uma entrevista, que o que fez com que Krisiun ganhasse visibilidade, foi justamente o fato de eles primarem pela qualidade do som em uma época em que os festivais underground eram muito mais podreira do que hoje. Eles queriam que quem estivesse em seus shows realmente os ouvisse, que não fosse só “barulho”. E conseguiram. Resgataram um público que estava esquecido no anos de 1990 e cresceram. Aperfeiçoaram o som. Nunca pararam de estudar. É o tipo de banda que reflete o seu tempo sem perder as referências. São ousados e fazem o que querem. Se ainda existe gente assim, como o rock pode morrer? Ai vem o fã cabecinha. Relutante com mudança. Relutante com tudo. Para eles o rock já morreu faz tempo. Morreu dentro deles. Aí não tem salvação mesmo!

Para de reclamar e vá ouvir Rock n’ Roll!
Então, proponho um exercício de ano novo. Que tal reaprender a escutar? Ouça música em mídias diferentes: pelo celular ou mp3, em CD e em vinil. Explore todas as possibilidades. Mantenha-se em contato com a música. Ouça os trabalhos novos de seus artistas preferidos. Ouça bandas e artistas que você nunca ouviu antes. Só envelhece quem quer.  As pessoas mais interessantes que eu conheço (independente da idade), são aquelas que carregam suas referências para o presente. Em vez de reclamar, dizendo que “bom era antigamente”, que tal fazer com que agora seja melhor? Este é o seu tempo, porra! E, vamos combinar, você já não tá cansado de ouvir mais um cover de smoke on the water no bar? Eu tô. Por que não dar uma chance pro lado B? Às vezes, a gente passa tanto tempo ouvindo as mesmas coisas, que deixa de prestar atenção. Então, se for pra ouvir a mesma música até o final da vida, ouça de verdade!

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2017 já tá ai batendo na nossa porta. Prefiro nem imaginar quantos outros artisitas iremos perder nesse próximo ano, mas sei que vamos. E o que isso quer dizer? Nada!
O rock n’ roll nunca vai morrer, mas é extremamente fácil matá-lo dentro de você. Basta parar de alimentá-lo. Basta envelhecer. E ai, sinto muito, é uma pena para você. Já para o rock, bem, sorte que ele não envelhece.

SOBRE A AUTORA

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos de Rock, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que conta por aqui.

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