Sobre os Shows que Não Vou Ver

Por: Amanda Cipullo

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, o sonho da minha vida era ver minhas bandas preferidas ao vivo. Demorei  uns 2 ou 3 anos para ir no meu primeiro show de verdade: Carlos Santana, presente do pai.

De lá pra cá, como você pode imaginar,  foi um caminho sem volta. Fiz vários malabarismos econômicos para ver tudo o que vi e, é claro, não me arrependo nem um pouco. Assisti ao Kiss, Alice Cooper, Robert Plant, Ozzy, Black Label Society (mais de 3 vezes), Metallica, Uriah Heep (esse foi de graça), Black Sabbath, Michael Graves e Marky Ramone, Sepultura, Eric Clapton, David Gilmour, Megadeth… E mais uma caralhada de coisas. A lista é grande, e minha memória envelhecida em barril de álcool, não me permite lembrar tudo. Mas de algumas coisas que me lembro como, por exemplo, o fato de que, os primeiros shows que vi, não tinham essa picaretagem de pista premium. Era pista ou  nada. E ficava na frente quem chegava primeiro. Simples assim. Os ingressos foram extremamente baratos, mas eram pagáveis. Com R$ 150,00 ou R$ 200,00 , era possível ver de perto aquela galera que a gente nunca imaginou ver ao vivo, e disso eu me lembro muitíssimo bem. Cara, como era bom!

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Ir a shows, para mim, sempre foi uma espécie de exorcismo. Era tudo muito simples: você ia lá, cantava junto com várias pessoas tão ou mais suadas do que você e, porra, no final era como se alma tivesse sido lavada pelo suor. Cada minuto valia a pena. Depois, aquela 1h30 ficava gravada pra sempre na memória. Parece que a gente tinha o dom de eternizar o momento – não em vídeos ou em fotos, mas em um outro lugar, onde as lembranças não amarelam.

Ano passado, anunciaram que o Gilmour iria aparecer por aqui. Entrei na fila de sei lá quantas mil pessoas, pela internet, para conseguir o meu ingresso. Logo de saída, já me contentei com o fato de que iria de pista comum e, por essa razão,  ouviria o som, mas não veria muito (meu 1,55 não me permite mais do que isso). E tava bom, né? Pelo menos ouvir… Quase quinhentas pilas só para ouvir, mas tava bom.

Bem, chegou o dia do show. Tentei me posicionar no lugar que parecia menos pior para  ver um pouquinho do palco. Não tinha telão, mas tinha um monte de cinegrafista amador fazendo transmissão do celular. Fazendo transmissão pra mostrar que tava lá. Ok, uma ou outra foto, tudo bem, mas tem que ser a porra do show inteiro? Quando as luzes do estádio apagaram, só podia ver um mar de smartphones estrategicamente posicionados bem na minha frente – e eu só tenho um metro e meio de altura, lembra?

Vi muitas pessoas de costas para o palco. Muitas pessoas conversando. Muitas pessoas bêbadas demais para prestar atenção ao som. Vi pouca gente olhando lá pra frente, e era só isso que eu queria fazer: olhar para o palco.

Ali da onde eu tava, era possível ouvir bem o som, e isso já valeu, mas alguns amigos, que estavam na arquibancada, falaram que de lá não dava para ouvir muito, nem ver, não por conta da distância, a culpa era do mar de smartphones.

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E eu fiquei pensando que  aqueles imbecis, que empunhavam seus celulares de última geração, tinham pago tanto – ou até mais –  que eu, para assistirem tudo de uma telinha. Se for pra ver da tela, não é melhor ficar em casa?

E não pense você que isso foi privilégio da apresentação do Gilmour. Já vi acontecer muitas outras vezes. Ou melhor, em quase todas as outras vezes, desde que os celulares puderam se conectar a internet. E vai continuar acontecendo, é óbvio. Até Mick Jagger já falou sobre isso…

Esse foi o último show internacional que assisti. Não por opção, mas por falta de grana mesmo. E, claro, um ou outro amigo sempre me questiona: “mas se você faz cobertura, porque não vê de graça?”. Ai eu tento explicar que trabalhar em um show, é bem diferente de assistir um show. E eu jamais usaria minha credencial em benefício próprio, é justamente isso que da credibilidade ao meu trabalho. Muitas vezes, inclusive, abri mão de realmente assistir, para ser a pessoa que fotografa ou escreve enquanto todos olham para o palco. Era trabalho, não diversão. Nunca me arrependi disso, é outra experiência e é bem legal também, mas tem algumas coisas que eu realmente queria VER, e isso significa pagar. No entanto, agora, já com 23 anos, o ( pouc0 ) dinheiro que eu recebo, não é investido só em cerveja, tatuagem e rock n’ roll. Tem as contas, também, e elas não perdoam. Ai eu penso que  poderia atrasar uma ou outra para pagar 600,00 ou 700,00 contos de réis para ver meus ídolos da vida ao vivo, e me lembro do mar de smartphones. E desisto instantaneamente. E penso “se sobrar grana, eu vou”, mas nunca sobra.

Por isso, não assisti a nenhum um show internacional esse ano, e muito provavelmente, nem vou. Talvez, no próximo, também não. É, grande poderes implicam em grandes responsabilidades – já diria tio Ben. E, na “guerra dos tronos musical”, assisti ao show quem tem mais para desembolsar, não quem é mais fã. Fazer o que? Culpa de quem? Dos artistas ou das produtoras? Do dólar nas alturas, ou do público que paga o quanto for para nem ao menos prestar atenção? Sei lá. Talvez, seja uma mistura de todos os fatores. E não ir faz com que a gente quebre a corrente e se rebele contra tudo isso? Não necessariamente! Por aqui, o valor dos ingressos vai continuar um absurdo. As pessoas vão continuar empunhando seus celulares durante as apresentações. E as bandas menores, da cena local, vão continuar se fodendo para ganhar R$ 300,00 em uma noite – ou nem isso. E o mimi na internet? As cartas abertas às bandas, reivindicando preços menores? Bullshit!

A prova disso tudo, talvez seja essa última madrugada, com a abertura das vendas para Guns n’ Roses. Uma caralhada de gente querendo comprar ao mesmo tempo. Desembolsando muito mais do que poderia pagar, apenas para estar lá. Quantos deles realmente vão assistir ao show e quantos deles vão para mostrar nas redes sociais que estiveram lá?

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E o que eu quero dizer com tudo isso? Bem, é simples: se muitos gritam por ai que o Rock n’Roll não é mais o mesmo, sinto em lhes desapontar, mas parte dos culpados são os próprios fãs. O rock não está morrendo, as pessoas que estão a cada dia com menos noção. Não sei se é um fenômeno mundial, porque só entendo do que eu vejo ,pelas regiões em que caminho. E, por aqui, a verdade é uma só: não é o artista que vale mais de 600 reais, é o status de estar lá que vale.

E isso é bem broxante para quem assiste shows a quase 10 anos. Às vezes, até penso que estou bancando a saudosista chata. Saudosista com pouca idade e chata. Outras vezes, penso que essa geração que hoje é adolescente, nunca vai sentir o que eu sentia quando fui em meus primeiros shows. Os celulares não vão permitir que sintam. Uma pena para eles, para mim, e para os outros saudosistas chatos, como eu. É, nem sempre esse negócio de progresso e tecnologia vem para o bem.

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No mais, é claro que, sempre que puder – ou melhor, quando o show for realmente imperdível – vou tentar desembolsar uma grana alta para ver meus artistas preferidos se despedindo dos palcos (ainda tenho esperanças para o Black Sabbath). E sei que terei que ter muito controle emocional para não berrar com os engomadinhos do rock chic e se seus smartphones de última geração. E talvez eu até me sinta um pouco obsoleta, com apenas 23 anos, por pensar dessa forma. Mas, no final, sei que vai valer a pena desligar o celular e deixar que apenas a memória – que é minha, e não de um aparelho – guarde as lembranças daquela 1h30.

SOBRE A AUTORA

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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