Max Kolesne fala sobre último álbum do Krisiun e tudo que os levou a percorrer o caminho sem volta do metal extremo

Edição e entrevista: Amanda Cipullo

“Eu nunca parei para pensar “puta, isso não tem chance de acontecer”. Ninguém nunca pensava nisso. Era todo mundo focado 200%. Era Krisiun ou nada.”

No início do mês, batemos um papo por telefone com o baterista do Krisiun, Max Kolesne. Na ocasião, a banda estava com 2 shows marcados em São Paulo, no Sesc Pompéia, parte da turnê de seu último trabalho em estúdio, o Forged In Fury (2015), álbum que teve grande repercussão no mundo inteiro.

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Confira na íntegra o que Max disse a respeito da experiência de cair na estrada com o novo disco, os processos de composição da banda e tudo o que o levou a percorrer o caminho sem volta do metal extremo.

CASOS: O Forged In Fury está tendo uma ótima repercussão de crítica, como está sendo a experiência de cair na estrada para divulgá-lo? O que vocês tem sentido dos fãs nos shows?

MK: A recepção foi muito boa. Lógico, sempre tem uma parte dos fãs que preferem os álbuns mais antigos, que são mais crus. Mas, assim, no geral, foi muito positivo. Acho que, talvez, dos últimos álbuns que a gente lançou,  é o que teve a melhor repercussão. A gente tá conseguindo fazer uma turnê bem extensa, a agenda da banda tá bem cheia, desde o ano passado até agora.

Esse ano a gente já fez uma turnê com o Cannibal Corpse, na Europa. Vamos para os Estados Unidos fazer o  Summer Slaughte. Mais para o final do ano vamos voltar para Europa para fazer uma turnê com o Dark Funeral. Tem festivais e muitos shows. Isso é um sinal de que o disco está indo bem e a aceitação está sendo muito boa. E é um disco que vai crescendo, as pessoas vão conhecendo melhor, descobrindo melhor as músicas e vão gostando cada vez mais.

É um disco bem variado, diferente dos outros do Krisiun, tem mais variações rítmicas e de melodia. Obviamente, a gente não perdeu aquela brutalidade e velocidade,  as marcas registradas da banda, mas a gente com certeza tá fazendo um lance mais variado, botando um pouco mais de peso, umas partes mais lentas, dando espaço para explorar linhas de vocais diferentes. Enfim, é um disco bem mais variado, então, é um disco que cresce com os fãs. Um disco que realmente está tendo uma resposta muita boa.  

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CASOS: Desde o álbum anterior, o The Great Execution, vocês, têm acrescentado esses  outros elementos, que você mencionou, ao som da banda, mas sem deixar o espírito extremo de lado, o que os levou a isso e qual foi o caminho que percorrerão para conceber o Foged In Fury? 

MK: Exatamente.

São uma série de fatores, o próprio amadurecimento musical. A gente amadurece como músico e tem a necessidade de trabalhar coisas diferentes e tocar ritmos um pouco diferentes, com mais variações.

Do AssassiNation para trás, 90% do que se ouve, é pura porrada e velocidade. Obviamente, eu gosto tanto dos discos antigos, quanto dos novos. Adoro escutar o Conquerors of Armageddon, o AssasiNation, o Apocalyptic Revelation, mas se a gente ficasse sempre seguindo pela mesma linha, e se repetindo, acho que ia ficar uma coisa maçante.

Chega uma hora que para você desenvolver mais a criatividade e, criar coisas diferentes, tem que mudar um pouco a fórmula, né? E a gente sentia essa necessidade de mudar um pouco  para criar coisas novas.

É como eu disse antes, a gente criou coisas novas, mudou alguns elementos, mas sem deixar de ser a mesma banda. Tanto que as músicas mais lentas são pesadas,  brutais e bem agressivas, sem jamais fugir do que é o Krisiun.

A gente jamais tento buscar  elementos fora do metal, ou alguma coisa mais pop, longe disso! A gente sempre seguiu a mesma linha agressiva e pesada, só deu uma variada  nos ritmos.

Como eu disse, uma série de fatores nos levaram a isso, e nós sentimos necessidade de fazer uma coisa um pouco diferente, é um amadurecimento natural no momento em que se está compondo. É natural buscar um ritmo diferente, uma forma diferente, porque a forma de composição do Krisiun é feeling em primeiro lugar.  A gente sempre está se divertindo com o que faz, então, tem músicas que saem, assim, meio sem pensar, sabe? A gente tá ali, e toca um groove na batera, depois encaixa a guitarra… E se a gente achar que ficou legal, é a partir dai que vamos criando a música, de uma forma bem espontânea,  sem ficar tentando criar coisas muito técnicas, muito cabulosas. A gente faz a música com o coração. Então, é isso: um amadurecimento e a necessidade de criar coisas diferentes.

Obviamente isso não significa que o Krisiun não vai voltar a fazer músicas como fazia no passado. A gente tem feito coisas bem rápidas e, com certeza, vai continuar fazendo para um disco futuro, sabe? O próximo disco com certeza vai ter músicas que vão resgatar um pouco da essência dos primeiros discos. É uma mescla, né? A gente vai variando com músicas um pouco lentas e outras bem rápidas. E acho que isso, nos shows ao vivo, tem criado uma atmosfera legal, de não tocar só músicas rápidas. Isso deixa o show mais interessante para a galera curtir.

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CASOS: Como é o processo de composição das músicas? Você falou um pouco agora, mas tem alguma ordem para que vocês façam as coisas ou esperam ir surgindo?

MK: Não, a gente não segue ordem. Chega aquele momento em que a gente já finalizou a turnê do disco, depois de um ou dois anos na estrada, ai a gente começa a se concentrar no disco novo, se reúne, vai para o estúdio, vai trocando figurinhas. Normalmente, o Moisés já chega com algumas ideias semi-prontas, uns riffs e algumas coisas que ele já têm em mente, e ai a gente vai encaixando as linhas de batera, de baixo e de vocal.E vai montando a música

Uma coisa que a gente sempre busca, é ter uma introdução legal. Para a gente chegar nesse ponto, não tem muita regra. Têm músicas que a gente criou a ideia em uma passagem de som, por exemplo, eu tava lá tocando um ritmo na batera, ai o Moisés já criou um riff em cima, ficou legal e a gente falou “pô, vamos tentar criar uma música a partir dessa introdução”. Então, é basicamente isso. A gente consegue uma introdução, um início legal  e ai vem o trabalho um pouco mais árduo, que é encaixar as partes, criar a continuidade…

Às vezes, a gente cria uma música inteira e ai escuta ela e corta umas partes, caso precise simplificar alguma coisa. Normalmente, a gente cria uma música e quando a gente tá ensaiando, a gente vai cortando umas partes que estão um pouco exageradas. Mas o que a gente tenta fazer é criar um som legal que, em primeiro lugar, a gente se sinta bem tocando e que ache que soe legal. Um som brutal que a galera vá escutar e bater cabeça. Eu acho que é isso ai.

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CASOS: Quais são as maiores influências de vocês? Tanto para compor tanto o que vocês curtem ouvir. Não sei se você pode falar por todos…

MK: Posso simO Krisiun é uma banda muito enraizada no metal, cara. (As nossas influências são) Black Sabbath, Motorhead, Judas Priest, Slayer, Destruction, Morbid Angel, Sepultura da época mais antiga. Os classicões do metal. Mas a gente também ouve umas coisas de fora (do metal), tipo: John Coltrane, Buddy Rich, John Mclaughlin, umas coisas assim, que são tão malucas, ou até mais, do que metal. Jazz, musica Latina… Enfim, a música é muito rica, e a gente sempre acaba escutando uma coisa aqui e outra lá e pegando as influências, que acabam indo parar em uma escala de guitarra, às vezes, no ritmo da batera, que pode ser uma alguma coisa meio inspirada no Jazz, ou em algum ritmo latino, entende? Ou coisas tribais…

Então é isso, nossa raiz basicamente é puro metal, mas como a gente escuta muita música, tem outras coisas que acabam influenciando, também.

CASOS: Mudando um pouco de assunto, como você vê a cena atual do metal extremo nacional? Tem algum banda que você ouça?

MK: Sim, sim. Bastante! Tem muita banda legal! Tem o Exterminate, Torture Squad, Claustrofobia… Tem muita coisa por ai. Muita coisa de qualidade. Hoje em dia, mudou o padrão. Antigamente, muitas bandas que viviam de metal extremo, muitas vezes, não tocavam certo. Você ia ver um show e era só aquela barulheira. Hoje em dia a coisa evoluiu bastante…

CASOS: Tem uma preocupação maior, né?

MK: Uma preocupação com a performance, com certeza. Quem vai em show sabe disso, se você vai em um show que tem uma estrutura média, você já consegue escutar com clareza. Então, se o cara for lá fazer barulho, a galera vai se ligar que tem que ensaiar mais. E, hoje em dia, eu acho que a galera tá se dedicando e botando pra quebrar, ficando bem afiada pra tocar ao vivo.

O público também está mais exigente, né? Antigamente, o fã de metal, eu posso falar por mim, ia no show curtir banda e tinha muito daquela ideologia de ser underground, de ouvir um som verdadeiro, mas a música em si não era muito legal, porque ficava aquela barulheira toda, só que a gente não ligava muito pra isso, né? Mas hoje em dia, não. A galera vai em show e quer ver qualidade, quer ver os caras tocando bem, né? Então, não da pra chegar ao vivo e tropeçar muito nos tempos e tal.

Quando eu descobri a bateria eu falei: “é isso que eu quero e não tem como não seguir esse caminho”.

CASOS: Para finalizar: Você se lembra o que te levou a querer viver de música?

MK: Quando eu era moleque, o lance foi tão mágico quando eu descobri a bateria… Eu era um moleque que ia bem na escola, fazia ginástica olímpica. Ai, quando eu descobri a bateria, eu comecei a ir mal na escola, ia mal em tudo, porque eu só queria saber da bateria. Foi uma coisa mágica.

E, obviamente, comecei a fazer música como os meus irmãos. Como eu sou o  mais novo,  fui o último a começar a tocar. Mas foi uma coisa muito instantânea e mágica. Quando eu descobri a bateria eu falei: “é isso que eu quero e não tem como não seguir esse caminho”.

Ai foi isso, a gente começou ensaiando e, depois, se dedicando cada vez mais a banda, levando cada vez mais a sério.

E o legal é que, quando a gente se mudou para São Paulo, em 1993 / 1994, para tentar assinar com algum selo, fazer a banda crescer e tal, ninguém na banda ficou em cima do muro. Eu nunca parei pensar “puta, isso não tem chance de acontecer”. Ninguém nunca pensava nisso. Era todo mundo focado 200%. Era Krisiun ou nada.

A gente era muito radical. Era até uma ignorância de moleque, digamos assim, porque a gente não se preocupava com essas de coisas de “se a banda não virar, o que a gente vai fazer da vida?”. A gente não pensava nisso. E tem muita banda que você vê que tem um ou dois caras muito focados, mas o resto fica em cima do muro, pensando “e se não der certo”, “e se não der dinheiro?”, “ah, tá indo pouca gente nos shows”. E a gente era justamente o contrário, tocava em qualquer buraco que tinha na cena underground de São Paulo e região. Não ganhava nada e tal, mas a gente era muito focado. E esse radicalismo que a gente tinha, foi a força motriz do Krisiun.

Também, é claro, a gente sempre buscou o crescimento, desenvolver as músicas, lançar os discos, assinar com selo gringo… É claro que isso veio aos poucos. Bem no começo a gente não tinha nada. E, inclusive, fazia um som tosco, porque a gente ainda não tinha desenvolvido uma técnica legal. Muita gente criticava e falava “pô, esses caras ai, fazendo esse barulho, não vão chegar a lugar nenhum”. Só que a gente era isso: radical, focado, extremo e nada podia parar a gente!

Casos: Isso que construiu tudo, né

MK: É, foi assim. Na marra, né? E foi legal.

E eu acho que o Krisiun também deu sorte, porque quando a gente lançou o Black Force Domain (o primeiro álbum da banda), causou um barulho legal na cena mundial. Foi um disco que saiu lá fora, e teve várias pessoas da imprensa elogiando, várias bandas. Os caras do Nalpam, do Cannibal falavam “pô, essa banda do Brasil tá realmente fazendo um som brutal, com elementos old school”.

Era algo diferente do que estava sendo feito na época, e eu acho que encaixou como uma luva para a galera que curti Death Metal brutal, mas com uma pegada mais old school.

E o  Black Force Domain tem muito dessa raiz, com influências de Possession, Slayer, de Thrash e Death metal dos anos de 1980. Eu eu acho que isso ai caiu no gosto dessa galera que curte esse som.

E dai em diante a coisa foi, né?

SOBRE A AUTORA

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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