O blues no Cinema

Por: Amanda Cipullo

Nota da autora: Era para essa publicação ter saído muito antes . Não deu. E, apesar de a Mostra de Blues (evento que deu origem a esse texto) já ter acontecido há quase 1 mês, falar sobre isso continua sendo válido. Afinal de contas, aqui nós não falamos sobre os últimos acontecimentos da semana, mas sim sobre histórias, que são notícias que não envelhecem.
Posto isso, lá vamos nós…

Das colheitas de algodão no Mississippi, às ressacas amorosas que (até hoje) sobrevivem em botecos mal iluminados. Da simplicidade, à erudição: o blues está em tudo. É mais alma do que técnica e, possivelmente,  foi isso que fez com que ele se tronasse o pai de muitos outros estilos, inclusive, do Rock n’ Roll.

Como já se sabe  (ou pelo menos deveria saber), para se conhecer verdadeiramente um estilo, é preciso mergulhar em suas raízes, e foi justamente isso que as sessões de filmes da Mostra de Blues proporcionaram ao público, durante os  cinco dias em que nos foram apresentados longas que contam um pouco da história do blues.

Entre documentários e obras de ficção, adentramos e compreendemos (ou tentamos compreender) um pouco da complexidade e simplicidade que tornam o esse um tipo de música ímpar, que atravessa gerações, sempre nos emocionando de alguma forma.

Após as sessões, iniciavam-se debates com dois peritos no assunto: Mario Bortolotto, dramaturgo, músico e rock n’roller;  e Nuno Mindelis, grande guitarrista e bluesman, que nasceu em Angola, mas tem alma brasileira. Juntos, contavam histórias e percepções a respeito do estilo que transformou, e ainda transforma, as suas (e as nossas) vidas.

É claro que existem diversos filmes que falam, de maneira brilhante, a respeito de música, sobretudo, de blues. No entanto, os cinco escolhidos para essa temporada da Mostra são, sem dúvidas, alguns dos imperdíveis na lista de qualquer bluesboy ou bluesgirl.

Então, anote esses nomes, e já se prepare para as próximas sessões de cinema em casa.

Cadillac Records 
Diretora: Darnell Martin
Ano: 2008

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O filme conta parte da história da Chess Records, famosa gravadora de blues e soul, que lançou vários nomes importantes, como: Muddy Waters, Little Walter, Howlin’ WolfChuck Berry, Etta James e  Willie Dixon, compositor de grande parte das letras mais famosas do gênero.
O enredo gira em torno da trajetória musical de alguns desses personagens, mostrando desde o surgimento do Chicago Blues até a falência da gravadora e, consequentemente, dos  músicos que lançaram o estilo – permitiram que o mundo pudesse ouví-lo em 33 rpm.

O longa é baseado em fatos reais, mas com alguns toques de ficção. Por exemplo, Little Walter não morreu realmente na casa de Muddy Waters. E, também, não foi Muddy quem o arrumou para o enterro. Mas, na ficção, esse tipo de licença poética é válida. Só não entendi muito bem, porque não mencionaram o irmão de Leonard – Phil Chess – , que era seu sócio na gravadora…

Enfim, de qualquer forma, é um filme que vale a pena ver. Principalmente, pela caracterização dos atores que interpretam os artistas da Chess. E, dentre eles, o maior destaque, é também a maior surpresa: Beyoncé Knowles. Pois é, quem imaginava que ela era só mais um rostinho bonito do pop, se enganou feio. Beyoncé interpreta incrivelmente bem a fantástica Etta James e mostra a todos nós que seu repertório musical tem raízes bem profundas no que há de melhor da música negra.

Vale destacar, também, uma das última cenas do filme, quando Muddy Waters inicia uma turnê com os Rolling Stones. Como já se sabe, os Stones sempre foram muito fãs de blues, sobretudo, de Waters. Inclusive, o nome da banda é uma homenagem a uma música do guitarrista. No entanto, apesar de sabermos de toda a história, não deixa de ser emocionante ver em tela grande (mesmo com todas as licenças poéticas que cabem a ficção), o velho bluesman, após anos afastado da música, retornando aos palcos ao lado de garotos ingleses, que só queriam mostrar para o mundo o que eles já conheciam há muito tempo: a beleza do blues.

Black Snake Moan
Direção: Craig Brewer
Ano: 2006

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O longa, com título inspirado na música homônima de Blind Lemon Jefferson,  fala a respeito de superar traumas. Uma redenção, que se da a partir  do encontro da personagem de Samuel L. Jackson –  um ex-guitarrista de blues e religiosos, que após ter sido traído por sua mulher, passa a levar uma vida reclusa – , com a personagem de Christina Ricci – que também acaba de viver uma separação e cai em um ciclo vicioso de sexo, drogas e loucura.

Apesar das diferenças de personalidade e estilo de vida, há entre eles muito mais em comum do apenas fantasmas e confusões amorosas. Solitários, ajudam um no outro a se reencontrarem, usando a música como meio. Para Lazarus (Jackson), a presença de Rae o instiga a voltar aos palcos e, de um certo modo, também para a vida. Já para Rae (Ricci), ouvir as canções de Lazarus a leva a uma catarse, que faz com que finalmente entre em contato com seus medos – sem surtar com isso.

Entre uma cena e outra, aparecem vídeos de Son House falando um pouco do que significa o blues para ele. Segundo House, no final, é tudo sobre amor, traição e miséria, e só quem já viveu cada uma dessas coisas, pode entender verdadeiramente o que é o blues. A música e as falas do velho bluesman, no entanto, não são apenas pano de fundo para a história dos personagens. Há muito em comum entre o personagem de Samuel L. Jackson e o próprio Son House, que assim como Lazarus, foi traído pela mulher e viva em conflito com a vida religiosa vs as noites de boêmia que a música lhe proporcionava.

THE BLUES
Ano: 2003

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Nessa série de documentários, o cineasta Martin Scorsese reuniu alguns diretores de cinema, para que cada um deles dirigisse 1 longa sobre o blues, e seus talentosos artistas.

O resultado desse trabalho em conjunto foram  7 obras incríveis:  “Feel Like Going Home” (Martin Scorsese); “The Soul of a Man” (Wim Wenders); “The Road to Memphis” (Richard Pearce); “Warming by the Devil’s Fire” (Charles Burnett); “Godfathers and Sons” (Marc Levin); “Red, White and Blues” (Mike Figgis) e “Piano Blues” (Clint Eastwood).

Dentre todas, três delas estiveram presentes na programação desse ano:

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The Soul Of A Man
Direção: Wim Wenders
O documentário fala sobre a trajetória de 3 bluesmans: Skip James, Blind Willie Johnson e J. B Leonir. Os músicos, no entanto, não foram escolhidos ao acaso. Wim Wenders, como muitos já sabem, é um grande fã de blues e, em seu filme,  nos faz compreender, por meio de  relatos, documentos e, de seus próprios estudos pessoais,  importância das obras de seus ídolos maiores.

É um dos meus filmes favoritos da Mostra. Inclusive, ano passado, também tivemos a sorte de vê-lo em tela grande. As músicas, contradições e reveses que compuseram as vida de Skip James, Blind Willie Johnson e J.B Leonir, é definitivamente algo que todos devem conhecer.

Piano Blues 
Direção: Clint Eastwood
Clint Eastwood entrevista diversos pianistas de blues, em busca de histórias e percepções dos músicos e musicistas, a respeito da importância do instrumento no estilo.

É um documentário bem interessante, que nos permite entrar em contato com as raízes do piano blues.

Feel Like Going Home 
Direção: Martin Scorsese 
Mescla a jornada do músico Corey Harris, em busca das raízes do delta blues, com arquivos, fotos e documentos raros de nomes como Son House, John Lee Hooker e Muddy Waters. É um filme que fala sobre voltar as origens, e Scorsese nos faz voltar a elas de uma forma extremamente bonita, fazendo com que viajemos do Mississipi a Africa do Sul, em busca do som que deu origem ao delta blues.

“Eu sempre senti uma afinidade com o blues – a cultura através da história da música é inacreditavelmente fascinante e atrativa para mim. O blues tem uma resonância emocional incrível e é o berço da música popular americana. ”

Martin Scorsese

Pois é, as canções que começaram a ser entoadas no início do século XX, pelos negros norte-americanos, ainda hoje , dizem muito a respeito de nossas vidas. E, ao final dos 5 dias de exibição dos filmes, foi isso que me peguei pensando, que essa é a maior herança que o blues nos deixa: a capacidade de continuam sentindo.
E você, tem algum filme para nos indiciar?
SOBRE A AUTORA

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Lola Lenoir. disse:

    Republicou isso em ___Blues Sobre Trilhos___.

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