Blues de Bêbados Habilidosos

“É que às vezes a vida é assim
Como um whisky ruim”

(Bêbados Habilidosos – Whisky Ruim)

12 compassos e  3 acordes. É crônica em forma de música. Nossos absurdos em poesia. Credos, crendices e aquelas coisas óbvias, que todo mundo sabe, mas não consegue (ou não tem coragem) de dizer. É a história daqueles que produziam suas próprias bebidas; da boemia e dos goles a mais – mesmo em tempos de lei seca. É o lado duro e selvagem da vida. Sem filtro, sem correção . É simples, e talvez por isso seja tão bonito. É blues. Esse é o blues!

Certa vez, em uma dessas conversar de bar, ouvi alguém dizer que blues não era coisa para ser feita no Brasil. “É música de norte-americano. Blues em português não fica bom”, disse-me um cara velhão, que se dizia músico.  “Como não fica bom?”, pensei. “E o Nuno Mindelis? E o Celso Blues Boy? E o André Christovam? “. Mas não falei nada, eu era só uma menina de 14 ou 15 anos, não me achava e competente o suficiente para entrar nesse tipo de discussão.

Algum tempo passou e, um dia, essa maravilha tecnológica chamada YouTube, me levou a paragens musicais até então desconhecidas: Bêbados Habilidosos! Entre as músicas, encontrei um documentário chamado “Ele é o Blues”, que conta um pouco da trajetória  de Renato Fernandes, vocal dos Bêbados. Foi então que percebi um rosto conhecido em meio aos depoimentos: Fabio Brum, puta guitarrista,  cara que entende e vive de verdade o blues! E, bem, eu já sabia que  Brum tinha tocado com uma porrada de gente, mas não sabia sobre o Bêbados! Aliás, até então, nem os conhecia.

Coincidentemente, na semana dessa descoberta, eu iria entrevista-lo para o Casos de Rock. Foi o timing perfeito. E  dai que veio a vontade de entender mais sobre toda essa história. Afinal, quem eram aqueles caras de Campo Grande que faziam aquele som tão descaralhante? E como eu poderia encontrar mais músicas deles? Na verdade, de preferência, todas.

Nessa empreitada pessoal para conhecer mais a fundo as raízes do Bêbados, descobri muitas coisas. Algumas, por meio do documentário que citei. Outras, contadas pelo próprio Fabio Brum.

Não consegui achar os cds para comprar, mas pude ouvir algumas vezes Brum e Bortolotto tocando composições do extinto Bêbados Habilidosos, tanto nos shows do Saco de Ratos (banda da qual Bortolotto e Brum fazem parte), quanto nos pockets que fazem eventualmente no Cemitério de Automóveis. E fiquei de escrever uma matéria, daquelas bem pontuais, com datas, locais, dias, nomes e rostos, para ilustrar tudo isso. No entanto, depois de coletar tanta informação, fiquei achando que um texto formal não combinaria nem um pouco com a trajetória de todos os músicos envolvidos nessa história.

Enfim, vamos ao que importa! O Bêbados Habilidosos é uma banda de Campo Grande. Sim, Mato Grosso do Sul, caso você  não se dê muito bem com mapas, ou ache que o polo cultural e musical brasileiro se restringe ao Sul e Sudeste.

Lá, Renato Fernandes, o bluesman extremamente habilidoso na arte de beber, iniciou e consolidou sua carreira. Inspirado em seus ídolos do Mississippi, começou a compor. Segundo ele mesmo, incialmente, letras bem ruins, ( Tesouras da Vida, por exemplo)   –  escrita é repetição, nem os gênios escapam da fase vergonhosa…

Fez cover, também, mas logo descobriu que queria mesmo era viver de suas próprias músicas.  Junto com Fabio Brum, fundou a Blues Band – possivelmente a primeira banda de blues do Mato Grosso do Sul. Em 1990, cada um foi para um lado e, dessa dissolução, formaram-se duas bandas. Renato, em parceria com Edney Costa, Marcelo Rezende e Rodrigo Itamar, montou o Bêbados Habilidosos. E, Fabio, o Bando do Velho Jack.

Depois de algum tempo,  Brum foi convidado para se juntar aos habilidosos beberrões e,   entre os bares e palcos de Campo Grande, movimentaram definitivamente a cena do blues nacional. Fizeram um puta sucesso em vários lugares, sobretudo, em São Paulo  – ironicamente, quem os trouxe para cá foi Mário Bortolotto, o dramaturgo rock n’roller que, mais tarde, iniciou uma parceira musical, que dura até hoje, com Fabio Brum.

Renato e os outros membros da banda nunca quiseram  viver na cidade cinza, mas Brum, e seu espírito on the road, queriam. Como ele mesmo diz, certa vez, mandou tudo a merda e foi morar nos Estados Unidos em busca de novas experiências (bem, mas isso já é outra história e acho que só ele pode contar). Por essa razão, saiu da banda, que continuou na ativa no  Mato Grosso com outra formação – fato que obviamente não impediu Brum de esporadicamente tocar com eles.

Já nos anos 2000, os Bêbados se separaram. Pouco tempo depois, Renato Fernandes faleceu. Essa semana, fez um ano. E, já que não tenho habilidade nenhuma para a música,  apenas para ingestão de álcool e para escrita –  mais para o álcool, é verdade – resolvi que essa seria a minha forma de homenagear o cara que era o blues. Blues cantado em português, com um puta groove e letras descaralhantes, do jeito que deve ser, e para babaca nenhum botar defeito.

Por fim, poderia encerrar dizendo que é sua obrigação, leitor amante do rock e suas raízes, procurar algo a respeito dessa banda e da obra de Renato Fernandes. Mas blues, meus amigos, é mais sentimento do que indicação. E esse tipo de coisa não tem como explicar!

 

SOBRE A AUTORA

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

 

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