As Noites no Cemitário de Automóveis

“Antes eu quero terminar de ver o filme”

É o que diz Billy, a garota. E sobem os créditos. O filme em que ela é a protagonista acaba – não o que ela assiste. Todos que estão na platéia do Cemitério de Automóveis aplaudem. A noite está só começando.
Tento equilibrar um copo de Jack Daniels entre as pernas, e uma garrafa de Heineken entre os braços, para poder aplaudir também.
Nesse momento, a primeira coisa que penso é que, para alguém contar uma história como aquela, com tanta leveza e tantos níveis de compreensão, é preciso já ter flertado com a morte em algum momento.
A sessão acaba e muitos de nós continuam por ali. Então, inicia-se a segunda parte da noite: um pocket show com Mário Bortolotto e Fabio Brum no violão (ambos banda Saco de Ratos), tocando aquelas músicas que a gente tanto gosta.

O filme que passa antes do show, é “Billy, A Garota” (2007), escrito e dirigido por Bortolotto. A obra foi parte de uma produção especial, realizada pela TV Cultura, que juntou textos de dramaturgos brasileiros e os transformou em tele-filmes de 30 minutos.
Apesar do título, que faz referencia a Billy, a garota intensa e meio suicida, na verdade, o que se vê na tela é a tentativa do protagonista, Hassim, de lidar com o caos de sua própria vida: o término com a mulher certinha, a boêmia e, em meio a tudo isso: Billy, a menina que já deu para todo mundo da cidade, menos para ele.
Existe um jogo entre eles:enquanto ela existir, ele não precisa organizar a vida. E enquanto ele estiver ali, ela pode adiar, pelo menos até o final do filme, qualquer tentativa de envolvimento e suicido. Um precisa se alimentar do outro para não correrem o risco de ter uma navalha cortando seus próprios pulsos. Nada diferente do que acontece na maior parte das relações: um encantamento mórbido, que deixa mocinhos de pau duro e mocinhas com a calcinha molhada; uma co-dependência que não pode ser explicada racionalmente, e sempre nos faz voltar para o mesmo quarto, para a mesma cama… Enfim, coisas assim.

Como eu dizia, a segunda parte da noite foi embalada pelos violões de Brum e Bortolotto, cada um de um lado do sofá, fazendo um som, contando algumas das histórias relacionadas àquilo que ouvíamos e levando-nos a diferentes lugares no tempo e no espaço.
A primeira música, também chamada “Billy, A Garota”, foi escrita por Paulo de Tharso. Segundo Mário, um presente que o amigo lhe deu, quando passava por tempos complicados. Ele, então, musicou a letra. Depois, transformou-a no texto que deu origem ao filme que havíamos acabado de ver, inclusive, ela faz parte da trilha sonora. De repente, tudo fez sentido. Para fazer um filme como aquele, é preciso já ter flertado com a morte, como eu suspeitava.

Seguimos ali por um bom tempo: eles no sofá e nós, da platéia, pedindo nossas músicas preferidas. Algumas, composições deles próprios. Outras, de amigos e gente que nós admiramos na arte e na música.
Nem parecia mais que estávamos em um teatro, era um encontro entre amigos. Uma saudação aos que já foram (como Paulo de Tharso e Renato Fernandes). Uma prece ao Rock n’Roll e a esse estilo de vida que, eventualmente, nos aproxima da morte, mas também nos presenteia com formas menos ortodoxas de viver.

Foi bonito e, mais tarde, bem alcóolico. Talvez fosse o que todos nós precisássemos para aplacar a melancolia daquele sábado chuvoso.

As noites no bar e teatro “Cemitério de Automóveis”, são sempre assim: um convite tentador às almas boêmias, quer seja para aqueles que esperam purificar seus próprios vermes com a infalível assepsia alcóolica, ou para os que apenas buscam boa conversa, com gente que não se importa em julgar se você tem ou não vermes para matar.
Naquele dia, fui para lá sozinha e, por isso, recebi de um grupo de amigos o apelido de “Dama da Noite”. Talvez, para algumas pessoas, seja peculiar essa minha vontade de sair sem companhia para a noite. De qualquer forma, ali nós nunca estamos totalmente só. E eu gostei do apelido! Me faz lembrar uma música do Jim Croce, Child of Midnight.

O que aconteceu depois que sai do bar, já por volta das 5h00 da manhã, talvez não seja muito saudável de ser publicado – às vezes a gente acaba esbarrando com os próprios demônios durante o caminho de volta para casa, sobretudo, depois de muitas doses de whisky e algumas garrafas de cerveja. Mas, o que importa é que a noite foi boa. É sempre bom esperar o filme terminar.

Para quem tiver interesse de ver e ouvir de perto o que acontece nas noites do Cemitério de Automóveis, vá até Rua Frei Caneca, 384. Não tem como errar, é o lugar em que sempre tem gente bebendo e saudando o Rock n’ Roll.

E para os que não conhecem o Saco de Ratos, taí a sugestão:

 

Sobre a autora

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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