A NOITE EM QUE GLENN HUGHES NOS MOSTROU O QUE É ROCK N’ ROLL

Texto e fotos: Amanda Cipullo

A primeira vez que ouvi Glenn Hughes cantar, foi em uma viagem de carro com meu pai. Era Trapeze. Não me lembro qual álbum e nem qual música, apenas da voz. Aquela incrível voz que ecoava pelos falantes do Corsa cinza em que estávamos. Era impressionante!

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Muitos anos depois, li as seguintes palavras em um livro:

“Glenn Hughes era, como eu disse, um dos vocalistas da minha lista de desejos. Ele chegou e cantou, e eu pensei: ‘Caramba, ele é bom!’. O cara era tão impressionante que pensei que seria ótimo usá-lo em todas as músicas do que viria a ser o álbum Seventh Star. No entanto, era difícil trabalhar com ele. Cara, ele cheirava dez vezes mais cocaína do que eu.”

Essas foram as primeiras impressões de Tony Iommi ao conhecer Hughes, descritas na biografia “Iron Man”.  É, não há como negar: de músicos gabaritados à crianças influenciadas pelo pai, o encantamento é instantâneo.

E, bem, para quem não sabe o resto da história, apesar dos abusos de pó branco, Glenn foi mesmo a voz por trás do Seventh Star – o décimo segundo álbum do Black Sabbath. Porém, durante da turnê foi substituído por Ray Gillian – justamente por conta daquelas questões relacionadas a cocaine, essa velha (ini)miga de tantos músicos.

Entretanto, muito antes disso, lá pelos idos de 1969, Hughes já impressionava muita gente sendo a voz do Trapeze. E mais tarde,  ao lado de Coverdale, nos vocais do Deep Purple. Nessa época, trouxe swing e groove ao Burn, seu álbum de estréia na banda, marcando uma fase incrível do Purple, e mostrando que era o tipo de músico que imprime sua marca em tudo o que faz. Artista de verdade.

Depois de Purple, Sabbath e alguns álbuns solos, foi a voz a frente do Black Country Communion, banda que também conheci por intermédio de meu pai, e a qual me tornei fã instantaneamente – se tem outra coisa que não da para negar a respeito de Hughes, é que ele sabe escolher os músicos com quem trabalha.

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Desse tempo todo que ficou para trás, muitas coisas mudaram, outras nem tanto. A voz de Glenn continua absurdamente impressionante, ouví-la de perto faz até com que nos esqueçamos de que aquele homem que brilha tanto no palco já é um senhor, e quem esteve no Carioca Club, no dia 16/08, pôde constatar isso da melhor maneira: ao vivo, a cores e com muito rock n’roll. Para ser mais específica, uma aula de Rock n’Roll!

E, bem, se por um lado a voz continua impressionante, os hábitos que fizeram com que tivesse problemas no auge de sua carreira – desculpe o trocadilho infame, não foi intencional – hoje parece que realmente ficaram no passado. Nada de drogas. Nada de brigas e confusões. E isso ficou bem claro, durante um princípio de confusão em meio a apresentação, quando disse, sem cerimônias: hey, vocês não vão brigar no meu show!

Interagiu mais algumas vezes com a platéia, no entanto, em certo momento disse que estava ali para fazer música, e não ficar falando. E foi exatamente o que ele fez, apresentando-nos um apanhado de algumas das melhores canções de sua carreira. Sim, teve (quase) de tudo: Trapeze, Black Country Communion, Deep Purple e até Whitesnake – banda da qual nunca foi membro oficial, mas fez algumas participações. Noite para fã nenhum botar defeito. Na verdade, noite até para os “ não-fãs” botarem defeito.

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Raramente confiro setlists antes de ir a algum show. Dessa vez, não foi diferente, mas sai de casa com uma ideia fixa de música que não poderia faltar. Durante a apresentação, em meio a empolgação de estar ali, acabei me esquecendo. Isso,  entretanto, até o momento em que o  guitarrista, sozinho no palco, começou a mandar um solo incrível. Pressenti o que viria a seguir, e antes de pensar e falar qualquer coisa, um cara que estava ao meu lado disse: “é agora!”. A partir dai, tudo o que aconteceu seguiu-se em câmera lenta na minha cabeça: todos voltam ao palco, iniciam aquela introdução inconfundível e Gleen dispara:

“I’ve been mistreated, I’ve been abused.”

E várias lágrimas escorrem pelo meu rosto.

Ainda estávamos no meio do show, mas para mim a noite havia valido só por aquilo – tudo bem, o gran finale, com Burn, foi descaralhante também, mas Mistreated foi sem igual.

Que noite, Glenn – repito agora, enquanto acendo um cigarro, numa de tentativa de reviver aquele momento de orgasmo musical, que faz com que o simples fato de relembra-lo, arrepie todo o meu corpo novamente – Ah, Glenn, que noite!

Confira todas as fotos aqui

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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