AQUELES DISCOS DO PINK FLOYD

Texto: Amanda Cipullo

– Foi você quem pediu os discos. Na verdade, seu pai ia levar todos, mas você disse que queria ficar com aqueles. Só com aqueles. Então ele os deixou aqui e não veio buscar mais. Agora são seus. – disse minha mãe, certa vez.

Durante muito tempo, achei que se tratava de herança. Não tenho lembrança de pedi-los. Não tenho lembranças de muitas coisas, na verdade. E é engraçado esse negócio de lembrar, porque às vezes me recordo vagamente de alguns rostos, no entanto, não sei de quem são. Consigo me lembrar da conversa que tivemos, de exatamente tudo o que foi dito, apenas não de quem disse. Outras vezes, consigo recordar com perfeição de pequenas coisas, como o momento exato em que olhava para determinado objeto, e como é curioso o fato de que os raios de sol que incidiam sobre ele faziam com que, em cada ângulo, parecesse-se com uma coisa diferente. Ou da agulha encostando no disco que rodava na vitrola, mas não exatamente da música.

Durante muito tempo, me referi àqueles discos como sendo de meu pai. Agora são meus. E não consigo imaginar o que levou uma menina de sete ou oito anos a reivindicar a coleção (quase) completa do Pink Floyd. Não consigo imaginar milhares de coisas ao meu respeito, mas todas elas são reais. E agora eles são meus. Sempre foram, só não havia percebido antes.

Nunca soube exatamente o que tomar posse das coisas, nem o que isso diz sobre nós.

Possivelmente, não muito.

Ou tudo, sei lá.

Uma vez, me apaixonei por um cara que também tinha uma coleção do Floyd. Bastou isso. E foi bom. Durante um tempo foi muito bom. Depois, a agulha começou a arranhar nossos discos. Acabou do mesmo jeito e na mesma intensidade com que começou.

Mais ou menos nessa época, recuperei a minha própria coleção, que por alguma razão que não sei bem qual, não estava em meu poder. Foi a maneira que encontrei de tomar posse da minha própria vida, reivindicar o que era meu por direito ou por herança. Merdas desse tipo, entende? E seria bem poético dizer que tudo mudou desde então, mas o fato é que continuei – e continuo – não me apropriando de uma série de coisas, porque tomar as rédeas, um rumo e o “que é seu”, é bem difícil em alguns momentos – nesse de agora, por exemplo. Talvez por isso eu tenha me tornado uma pessoa estranha,  que insiste em recriar pequenos casos diariamente. Constantemente.

O telefone tem tocado poucas vezes nas últimas semanas. E, quando toca, é engano. E eu sei que o tempo inteiro estamos enganados. Então recorro às pequenas lembranças, aquelas que me parecem certas e seguras: conversas interessantes com gente que me lembro de como era rosto; objetos que mudam de forma, dependendo de como o sol incide sobre eles; clichês musicais e agulhas que se encontram, delicadamente, com os vinis. Daí, coloco um disco para tocar: Floyd para acalmar as dores de estômago e essa sensação terrível de não saber para onde ir. É só assim que me sinto em casa, apropriada de alguma coisa, junto com minhas próprias recordações e as músicas que escolho para celebra-las. Então, de repente, parece que já estive aqui antes, nesse lugar tão estranho, e que se uma menina de sete ou oito anos pode reivindicar a posse de alguns vinis, uma outra, de vinte e poucos, pode reivindicar a posse da própria vida.

“You are young, and life is long
And there is time to kill today
And then one day, you find
Ten years have got behind you
No one told you when to run
You missed the starting gun”

É o que toca agora. Os medos insistem em ser os mesmos, mas talvez os raios de sol que amanhã incidirão sobre eles, mudem a forma de enxergar o objeto. Essa é a esperança diária de todos nós.

E era isso que eu queria lhe dizer. No final das contas, era isso: essas coisas sempre passam, mas os discos continuam sendo nossos. E espero que eu e você possamos nos lembrar disso daqui a pouco, quando voltar a amanhecer.

Espero que eu e você saibamos dançar com o tempo.

Sobre a autora

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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