Crônicas de Rock: People are strange, when you’re a stranger

Texto: Amanda Cipullo

Tudo cheirava a whisky e cigarros. A janela estava aberta. O som no último volume. Ele acelerava e eu dava risada.

90km/h, 100km/h, 150km/h, 200km/h.

Alguma coisa saiu  fora do planejado. De repente eu é que estava na direção.

O cheio do whisky e do cigarro ainda eram fortes, a janela ainda estava aberta. Jim gritava mais do que nunca pelo falantes do som do carro. A estrada cada vez mais escura.

“People are strange, when you’re a stranger
Faces look ugly when you’re alone”

Morrison. Hendrix. Buñuel.

200km/h.

Arte. Cinema. Música. Eu tinha 16 anos e não fazia ideia de como se dirigia um carro.

16 anos, alguns nomes na cabeça, uma lista de coisas para fazer. 16 anos e 200km/h em uma estrada desconhecida, dirigindo sem saber para onde.

Quando não sabe para onde ir, qualquer caminho serve, diz uma música de George Harrison, mas Morrison cantava muito alto e eu não pude ouvir mais nada.

200km/h.

“When you’re strange, faces come out of the rain”

Perdi o controle. E agora? Um muro? Um abismo? Um soco na cara? Morrer dói?

Bati. Doeu, mas não morri.

Os cheiros,  ídolos, obrigações e todo o resto, caminharam para o esquecimento. Silêncio. Jim não cantava mais.

Morrison, Hendrix e Buñuel, estavam todos mortos, talvez eu tivesse também. De uma forma bizarra, a morte nos iguala.

Sorte deles que tiveram tempo, mesmo que pouco, para terem seus nomes em lugares importantes. Afinal, talvez seja para isso que se viva: para ter o nome lembrado depois de pilotar em alta velocidade. Para que toda uma sucessão de erros, seja apagada quando os olhos se fecharem para sempre; para que criemos mitos e deuses; para tentarmos fugir do esquecimento.

Abri os olhos: estava no meu quarto. As obrigações, a lista de nomes e  coisas reapareceram. Tudo estava como antes, exatamente no mesmo lugar. Era só um sonho.

Algumas pessoas caminham para ao esquecimento. Algumas pessoas fazem arte. Alguns erros são apagados quando a gente fecha os olhos, outros reaparecem a cada manhã. Algumas pessoas tem seus nomes colocados em praças e ruas. Outras, morrem anonimamente nessas mesmas praças e ruas.

Era segunda-feira, eu tinha 16 anos, chovia e eu não tinha feito nada de relevante. Precisava passar na prova de matemática e levar o cachorro para o banho. Mesmo assim, Jim ainda cantava: People are strange, when you’re a stranger.

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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