“NO CONTROL”, RESENHA SOBRE O CLÁSSICO ÁLBUM DO BAD RELIGION

Por: Carlos Costa 

“No Control” (1989), por Bad Religion. Epitath Records. Vocal: Greg Graffin; Guitarra: Greg Hetson; Guitarra e vocal: Brett Gurewitz; Baixo e vocal: Jay Bentley; Bateria e percussão: Pete Finestone.

É difícil encontrar alguém ligado ao punk-rock que não reconheça que “No Control” é um dos melhores álbuns do gênero. Quando o Bad Religion lançou o álbum em 1989 as bandas de punk-rock caminhavam para um estilo mais suave com letras mais leves e baterias não tão rápidas, conhecido como pop-punk. Este subgênero apesar de extremamente criticado pelos “fundamentalistas” da cena punk em todo o mundo acabou por popularizar o punk-rock e leva-lo parcialmente ao mainstream musical através de bandas como Green Day, The Offspring e seus derivados.

Antes desse novo período soft no punk-rock, o “No Control”, com suas faixas extremamente pesadas, curtas, violentas e com as letras mais críticas e agressivas à sociedade que poderiam sair das mentes do Greg Graffin e Brett Gurewitz acabou por ser tornar um álbum clássico, um dos últimos grandes álbuns punk em décadas.

Tracklist:

Change Of Ideas (0:56): A música de abertura do álbum basicamente tenta exprimir toda a essência do álbum através de uma única grande estrofe. A temática da música, assim como quase todo o álbum, fala sobre a necessária mudança de pensamento na sociedade para o novo milênio. O fim da década de 80 e o início da década de 90 foi marcado com um certo misticismo acerca da vinda do novo milênio, uma nova era onde a tecnologia e o liberalismo econômico iriam remodelar as relações sociais e elevar a humanidade para um novo patamar, otimismo este que vinha sendo criado desde o fim da Guerra Fria.

O trecho “Millenia is coming, the modern age is here / It sanctifies the future, yet it render us in fear / So many theories, so many prophecies / What we do need is a change of ideas” deixa bem claro a crítica a todo este misticismo e esperança falaciosa da obtenção de melhor qualidade de vida da população através da tecnologia. Para Greg, é necessário repensar a sociedade, repensar os modelos de relações sociais esquecendo de todas as teorias econômicas e políticas vigentes da época, assim como o lado místico religioso que o novo milênio representava. É necessário então uma terceira via.

Big Bang (1:42): O início de “Big Bang” já começa com uma velocidade absurda, sem aquela tempo de 1 ou 2 segundos entre as faixas e sem nenhum riff inicial que prepara o ouvinte para o início da música. Isto para mim é uma das coisas mais legais desta música, a quantidade de informação que é jogada na sua cara em tão pouco tempo te deixando despreparado para pensar e refletir. Sua mensagem é clara e simples: As pessoas esperam e buscam algum significado divino em suas vidas em vão (“All waiting for a moment in life when they can heed the clarion call”), muitas vezes vivendo em estado de torpor, ao invés de perceberem que o significado da vida está relacionado intrinsecamente à forma em que elas vivem, onde suas ações no mundo criam por si só um significado de vida.

A analogia entre a velocidade em que a vida vem e desaparece e a criação do universo é muitíssimo interessante, utilizando termos científicos da teoria cosmológica de criação do Universo para criticar um modo de vida oriundo (mas não apenas) da religião. “Big Bang”, a vida vem, “Big Crunch”, a vida se foi e você não fez nada que valesse a pena, apenas esperou. Existem algumas outras mensagens dentro da música mas acredito que essa parte exemplifica muito bem a mensagem passada pela banda. É de certa forma uma mensagem otimista, dizendo: “Ei cara, vá fazer algo de importante que daqui a pouco acaba. Não fica aí só esperando as coisas acontecerem!”.

No Control (1:47): “No Control” é uma daquelas músicas que geralmente deixa uma certa angústia em quem ouve pois te deixa bem claro: você não tem controle sobre a sua vida, você não vai durar pra sempre e você sabe disso. “Consciousness has plagued us and we cannot shake it though we think we are in control” exemplifica bem isso. Nós somos os únicos animais no planeta amaldiçoados pela consciência, que por consequência nos torna ciente de nosso próprio fim. Essa mesma consciência também nos faz entender que a vida é um eterno processo circular entre nascer e morrer (“There’s no vestige of beginning, no prospect of an end / When we all desintegrate it will all happen again”) e deve ser vivida com afinco.

Este trecho da música na realidade pertence ao pai da geologia moderna James Hutton e está presente em um de seus livros chamado Theory of Earth lançado em 1788 que busca entender as formações rochosas no planeta e a influência da sedimentação e erosão no processo. Hutton diz que as formações rochosas estão em eterno processo de formação, não existindo então uma terra original e pura, mas sim um processo eterno de criação, não havendo vestígios de quando começou e muito menos uma perspectiva de quando irá terminar.

É uma excelente analogia.Todos que buscam tentar exercer uma espécie de poder sobre o processo da vida/tempo não conseguirão ter êxito por muito tempo já que uma hora seu papel no ciclo irá acabar e recomeçar com outro alguém (“If you came to conquer you’ll be King for a day / But you too will deteriorate and quickly fade away”). Também tento ver esta música com a mesma mensagem de “Big Bang”: Você não é imortal, no plano geral você não é importante, você vai embora, mas você pode fazer coisas com significado dentro do processo da vida. Aproveite a sua maldição da consciência e pare de pensar no fim, pense no presente momento e em como você pode ser importante nesse pequeno piscar de vida.

Sometimes I Feel Like… (1:34): Esta faixa talvez seja uma das mais simples do álbum para algumas pessoas, não para mim. “Sometimes I Feel Like…” é a música clássica que toda banda de punk-rock que se preste faz em algum momento na carreira. É a típica música sobre quando se está irritado, furioso e quer apenas gritar. Agora vamos a parte sobre não acha-la uma música simples. Apesar da mensagem da música ser relativamente simples a construção da letra é simplesmente demais. Para quem está acostumado com as letras do Bad Religion ao longo dos anos percebeu que tanto o Greg quanto o Mr. Brett conseguem fazer palavras dificílimas e métricas absurdas rimarem e fazerem sentido de forma singular: “Existe uma pantera selvagem e orgulhosa atrás das portas de uma jaula odorante / e um intelecto subdesenvolvido preenchido com um ódio estático e impotente”.

Esse trecho traduz muito bem aquela sensação de quando se está furioso e cheio de coisas para dizer mas você não consegue pois o ódio é tamanho que te deixa impotente e sem palavras. Algumas pessoas entendem o “intelecto subdesenvolvido” referente a pessoas mais simples e pobres que não conseguem expressar suas ideias e estão presas a incapacidade de expressão, mas no trecho seguinte a música mostra que não só estas pessoas estão subjugadas a essa sensação de incapacidade, até mesmo a classe-média educada está à mercê deste sentimento: “e não pense que você está isento disto se você ganha bons salários semanais / por que seus vizinhos estão ficando loucos e a insanidade é contagiosa!”.

Automatic Man (1:40): Acredito que seja uma das músicas do Bad Religion que mais consegue sintetizar o modus operandi da sociedade Ocidental. O Homem Automático é aquele que segundo a banda age sem pensar, é um mar de ação e não-pensamento. Ele é o homem moderno que consegue tudo que quer através da violência e da força. Ele não precisa pensar antes de agir, ele é o típico Rambo macho-man. “His opinions are determined by the status quo / A true creature of habit (…) When he has an original thought / He forgets it right away” essa para mim é uma das partes mais interessantes, sintetiza muito bem o Homem Automático. Ele não questiona o mundo, ele não pensa por si só, ele aceita as informações que lhe são dadas e não sente necessidade de interpreta-las racionalmente.

Eu sempre pensei que o Homem Automático não está só associado apenas ao cidadão comum mas também aos líderes políticos onde a solução para os problemas se tornam muito simplistas, basta usar da violência e dos aparatos de coerção e pronto. Não é necessário pensar muito, só agir. Não consigo ouvir essa música sem lembrar do George W. Bush e a sua política externa, ao mesmo da cultura e banalização da violência que o Ocidente vive hoje.O ato de pensar é quase que coibido na nossa sociedade, questionar e sintetizar ideias se tornou obsoleto. Até mesmo na universidade, lugar onde o conhecimento supostamente deveria ser cultivado e as novas ideias ovacionadas isso acaba acontecendo. Lembro que o próprio Greg disse uma vez que na Universidade quando alguém tenta entender o mundo de uma forma nova e inovadora esse sujeito logo é rechaçado e marginalizado. Contraditoriamente a Universidade se tornou um lugar onde a promoção do consenso e da repetição é a regra principal.

I Want to Conquer the World (2:19): Um dos maiores clássicos do Bad Religion, com certeza. Essa é uma das músicas da banda que me afetam pessoalmente por eu estar dentro de um dos conjuntos de pessoas que eles criticam, e isso é bom demais. Eu quase que sinto o chute na virilha que o Greg dá nessa música me dizendo “ei cara, coloca os pés no chão, as coisas não se resolvem tão rápido assim, você está agindo igualmente as pessoas que você critica!”. I Want to Conquer the World é basicamente um tapa na cara de todos independente da sua posição política e religiosa. Ela critica principalmente aquela sensação que muitas pessoas tem de se acharem donas da verdade absoluta do que é melhor para o mundo, até mesmo os racionalistas cegos e cientistas que conseguem cair no cientificismo e se cegam para outras formas de raciocínio.

O “irmão cristão”, que se preocupa tanto na salvação religiosa individual e esquece das necessidades básicas que as pessoas tem para ter uma vida digna; O “cientista”, que se preocupa tanto em adquirir conhecimento mas se esquece boa parte das vezes em utilizar este conhecimento e melhorar o lugar onde vive; O “diplomata”, que com as suas aspirações globais esquece de agir localmente; O “soldado moral”, que pensa e age cegamente para sua pátria. “With a quick wink of the eye / and a ‘God you must be joking!’” é epicentro da música para mim.Como foi dito no início, ela ironiza todo o imediatismo contido nas certezas das pessoas. Todo esse imediatismo faz parte da construção humana, o desejo de moldar o mundo à sua forma, mas a música tenta fazer um alerta para não se cair em um imediatismo tolo e para não se achar senhor da razão, sempre permitindo novas ideias, evitando achar que você encontrou a resposta final para os problemas do mundo.

Sanity (2:44): Eu costumo me identificar bastante com essa música. É uma das mais lentas do álbum e ainda assim uma das que mais me afetam. A música fala basicamente sobre como é difícil manter a sanidade no mundo em que vivemos, tanto por causa da eterna dúvida e incerteza sobre tudo (“It doesn’t really matter matter what I’m figuring out / I’m guaranteed to wind up in a state of doubt”) quanto pela velocidade em que as coisas mudam no mundo e pela dificuldade de processar a quantidade massiva de informações que recebemos todos os dias (“And sanity is a full-time job / In a world that is always changing”). Pela ordem da tracklist do álbum eu achei bem interessante essa música ser posterior a I Want to Conquer the World pois são complementares em seus pontos principais: as certezas e incertezas do indivíduo no meio em que vivem.

Henchman (1:07): Esta música é basicamente um discurso pacifista com uma mensagem bem positiva para a humanidade. O eu-lírico urge para todos que cometem ou promovem algum tipo de violência, seja o cidadão comum com discursos da ódio ou seja o soldado que mata de acordo com as ordens que recebem, que parem imediatamente, pois só assim o mundo poderá viver em harmonia. O “capanga” de que a música fala somos todos nós, que em algum momento desejamos o mal ao outro e não percebemos que não estamos fazendo bem nenhum ao mundo. A música deixa muito bem explicado: “Não seja um capanga / se mantenha honroso / faça o que ninguém mais faz / promova o bem para todos os outros homens para o bem da humanidade / e quando todos os outros seguirem a sua liderança / é quando o mundo todo viverá em harmonia”. Uma belíssima música: curta, direta e simples.

It Must Look Pretty Appealing (1:23): De longe minha música preferida do álbum. Um chute bem direto na cara da classe-média. A música fala sobre o pensamento fechado e o jeito ignorante e simples de se levar a vida de um cidadão médio. Uma crítica a todo esse estilo de vida: um bom emprego, o carro do ano, jantar na mesa com a família, um cachorro e uma foto de família feliz no porta-retratos da sala. Esse mesmo sujeito esquece que a vida é mais que isso, a vida oferece muito mais emoção e aventura quando se vive fora da zona de conforto social. O trecho “And the food on your table is more plastic than protein / And your intellect depends on your TV” é a melhor parte da música para mim pois ataca a essência medíocre da vida urbana da classe-média. Não só a vida urbana é atacada como também os refúgios campestres da classe.

You (2:05): Acredito que seja a música do álbum que abra o maior leque de possibilidades de interpretação. No meu ponto de vista a música é uma crítica ferrenha a religião, principalmente ao cristianismo, com um enfoque no pós vida. A primeira estrofe como um todo tenta idealizar uma espécie de paraíso inocente em que todos desejamos ir após morrer e levar nossos entes queridos, mas o eu-lírico é relutante a isso, ele se recusa a acreditar que tal lugar exista: “And you know I wish that I could go there / It’s a road that I have not found”.

A terceira estrofe fala exatamente como essa busca de um paraíso pós vida consegue gerar tantos conflitos aqui mesmo na Terra. Os mesmos que querem atingir este paraíso idílico espalham ódio e desavenças através da não-tolerância religiosa, dos conflitos religiosos e de intolerância moral. A chegada da morte não requer pré-requisitos e avaliação de currículo moral, ela vai chegar para todos. Você não precisa se apressar para a morte vir, você vai morrer, mas não vai para o seu paraíso idealizado, apenas ficará sem consciência para sempre (“And when the farm is good and bought / You’ll be there without a thought / And eternity my friend / Is a long fucking time”).

Progress (2:14): Max Weber estava errado quando acreditava que o progresso científico e econômico traria benefícios sociais para sociedade assim como uma evolução da nossa espécie. O Greg deixa muito bem explicado que é exatamente o contrário: o progresso científico e econômico não acompanha o ritmo do progresso social e em boa parte dos casos ele é o principal causador do declínio social, principalmente quando se está associado ao nacionalismo. “Progress until there’s nothing left to gain / As the dearth of new ideas makes us wallow in our shame” trata exatamente sobre essa questão econômica. Os líderes e as pessoas em geral não buscam novas ideias para se guiar a economia fora do conceito de “lucro acima de tudo”.O progresso é visto também como algo que vai acelerar nossa extinção no planeta pois, além de toda degeneração moral que ele causa, não percebemos os efeitos negativos na natureza e no planeta como a poluição e escassez de matéria-prima: “One step closer to the future / One inch closer to the end / I say that progress is a synonym of time / we are all aware of it but it’s nothing we refine”.

I Want Something More (0:47): Essa música é pura poesia. A riqueza e qualidade da letra com a velocidade e violência da parte instrumental é uma combinação que deu muito certo, até mesmo pelo tamanho curtíssimo da música. Essa faixa trata sobre a cultura materialista da sociedade e em como nós nos focamos muito em “juntar muitas coisas” mesmo sabendo que você irá perde-las no fim da vida. Existem outras coisas fora do mundo material que completam a sua vida, você não precisa preenche-la com “mais coisas”, existe algo além disso e não é necessariamente a religião. Existe a comunidade, o companheirismo, a música, a arte e tantas outras coisas que deveriam ser aspectos definidores da nossa humanidade.

Anxiety (2:08): Um dos grandes males que estão inseridos na nossa cultura é a necessidade de ser o melhor, de passar por várias provações na vida, de mostrar que se está acima de alguém ou algo, como se a vida fosse uma espécie de competição. Essa provação geralmente vem na necessidade de se ter mais do que a outra pessoa (“We all need a common cure / That common goal for wich you strive / To have more than the other guy”). Essa música é basicamente complementar à I Want Something More nesse quesito materialista.

Billy (1:54): Uma música bem simples sobre o poder devastador das drogas sobre uma pessoa, ainda assim uma das mais pesadas do álbum por causa da temática. Fala sobre um conhecido (acredito que algum amigo) que perdeu todo seu potencial e toda sua vida por causa de um vício. O poder do indivíduo é questionado quando se tem algum vício ou tentação, também se é questionado de quem é a culpa quando alguém perde sua vida por causa das drogas. Qual o papel dos amigos, da sociedade e do próprio indivíduo sobre a sua destruição em nome de um vício? Há quem culpar?

The World Won’t Stop (1:57): Para fechar o álbum esta faixa tem um tom parecido com a No Control no sentido de lembrar-nos o quão insignificantes somos para o planeta individualmente. É um tiro no egocentrismo do indivíduo e da sociedade como um todo principalmente quando achamos que um deus nos criou à sua imagem e semelhança e ao mesmo tempo todo um Universo que nunca poderá ser desbravado pela humanidade. O mundo não vai parar sem você, o Universo não foi feito para você. Pare de ser egocêntrico!

Sobre o autor

10714566_10152707932557770_9213292348544181533_o

Carlos Costa, ou Kenny para os amigos. Nascido em 1987 no Rio de Janeiro e atualmente reside no Rio Grande do Sul. Graduando em Relações Internacionais pela UFSM e pretende cursar o mestrado em Ciência Política. Apaixonado pela ficção especulativa, filmes de baixo orçamento e cozinhar porcarias. Ouve várias vertentes do rock e alguns outros gêneros mais obscuros. Pretende viajar para cantos inexplorados do mundo, e por que não, do Sistema Solar. Irá escrever livros acadêmicos e de literatura fantástica, apesar de ser péssimo escritor.

Conheça mais das escritas de Carlos no http://besourodourado.info/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s