Especial semana do Rock

Edição: Amanda Cipullo

Era seu último dia em uma fábrica de montagem de peças. Não queria ter ido, mas foi apenas para cumprir a obrigação. Tudo ia bem até que, de repente: sangue, dor e pedaços de dedos decepados.
Caramba, como isso foi acontecer?
Parece que ele até chegou a guardar as pontas dos dedos, para levá-las ao hospital, mas não adiantou, já era tarde.
O que pouca gente sabe é que aquele não era só último dia de trabalho, mas também o dia em que iria, finalmente, largar a vida na fábrica para iniciar a carreira de músico profissional.
Que azar, cara!
Meses depois do acidente – na época em que acreditava que tocar guitarra seria um sonho impossível -, nosso menino azarado recebeu a visita do ex-chefe que, na tentativa de animá-lo, lhe deu um disco do guitarrista Django Reinhardt, um cara que também havia tido um dia ruim, em 2 de novembro de 1928, quando um incêndio afetou seriamente a mobilidade de sua mão esquerda. Apesar disso, Django era fenomenal na guitarra. tinha um estilo próprio de tocar. Incrível e criativo! Era o incentivo que o garoto precisava para não desistir.
Algum tempo se passou até que o tal menino fundasse, junto com outros três amigos, uma banda chamada Black Sabbath. Sabe, todos eles viraram grandes, e o pequeno Tony acabou conseguindo a mesma coisa que Django: um estilo único e criativo que, mais tarde, segundo alguns, seria o ponta pé inicial para a criação do heavy metal – e das cordas de baixa tensão, também.

A história do rock pode ser contada de diversas formas. Mas, entre todas elas, talvez a mais interessante, seja a história contada por meio de histórias. Entende? Assim como Tony Iommi, muitas outras pessoas tiveram suas vidas mudadas pelo simples fato de terem dado um play no disco certo, ou por terem ido a um show… E, apesar de  já ser um vovôzinho, com muitos anos de loucuras e estradas, sempre está disposto a nos oferecerem novos casos. Portanto, decidimos comemorar o dia mundial dele (esse tal de rock n’roll), com um especial de uma semana, contanto algumas das histórias que fazem com que esse nosso avô nunca morra. Afinal de contas, a história do rock n’roll também é a nossa própria.

A Loira da Cozinha  
De: Marcos Mamuth

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O ano era 1974, mas talvez memória esteja me pregando mais uma peça das tantas que tem pregado ultimamente. A sensação, pelo contrário, é real, exata e atemporal. Talvez 1975… Que seja: 74 e não se fala mais nisso.
Na cozinha da casa dos meus avós, à tarde, eu ouvia uma estação de rádio AM e brincava. Lembro-me de raios de sol entrando pelas frestas da veneziana. Talvez minha avó estivesse cozinhando – ela estava sempre cozinhando…Sempre a mesma rádio, “Jovem Pan”… ou podia até mesmo ser “Excelsior, A Máquina do Som”. Não acho que isso realmente importe; ambas têm um lugar especial em meu coração. A primeira era a estação preferida de meu avô; a segunda, abriu meus ouvidos e meus horizontes, apresentando-me ao rock’n’roll.
Acredito que o dial do velho rádio a válvulas de meu avô seria incapaz de sintonizar qualquer outra estação além da Jovem Pan; então, que seja essa e pronto.
“48 crach”. Suzy Quatro começava a cantar, voz rouca, batida forte. Vontade de dançar, de cantar junto. Ao mesmo, uma sensação estranha: aquilo era tão bom que devia ser proibido. E era mesmo. Meu avô, amante de música clássica e de ópera, odiava esses gritos selvagens. Eu amava meu avô, logo, deveria amar em segredo aquela loira gostosa e atrevida para não magoá-lo.
O rock é ainda hoje para mim essa loira gostosa e atrevida. Mesmo tendo significado muitas outras coisas ao longo dos anos. Sobreviveu em mim após a febre disco, depois de passada a frescura multicolorida da New Wave; manteve-se firme – ainda que silencioso – durante minhas aventuras/descobertas MPBistas.
No primeiro Dia Mundial do Rock de que tenho lembrança, eu dirigia meu fusca azul para encontrar um cara que iria comprar minha “Gibson L6”. Não foi nem a primeira e nem a última cagada que fiz ao me desfazer de uma guitarra.
Mas essas são outras histórias…

 

Sobre a autora

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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