Aula de história e Rock n’Roll no lançamento do disco Massacre, da Made in Brazil

Texto: Amanda Cipullo
Fotos: Aline Rizzato

Imagino que ao longo de tantos anos, muitos e muitos jornalistas já tenham escrito resenhas sobre os shows da Made in Brazil – provavelmente mais sabidos e experientes do que eu. Acredito também que pelos próximos anos, eu mesma vá escrever muito mais sobre a banda que está no Guiness – livro dos recordes -, como o grupo em atividade com maior número de formações. Sim, muitas formações, mas todas com a presença de músicos extremamente competentes, sempre liderados pelos irmãos Vecchione, as duas lendas do Rock n’Roll nacional, que continuam na estrada independente de qualquer coisa (e olha que foram muitas).

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Massacre, o show proibido, como já contamos aqui no Casos (Leia mais aqui), foi a apresentação censurada pelos milicos da Ditadura. Ela lançaria o disco de mesmo nome, também censurado. Tudo isso rolou há muito tempo, em 1977, uma época em que a produção artística e cultural era constantemente boicotada por um regime autoritário e burro. Os anos passaram, reconquistamos a liberdade para produzir e “aquela banda Made in Brazil, para tocar Rock n’Roll”, continuou sendo peça fundamental para o cenário de Rock nacional. Os fãs, meninos cabeludos, viraram homens (sim, ainda cabeludos) e, com passar do tempo, outros meninos e meninas puderam descobrir o som desses caras. Música que atravessa gerações, em um país como o Brasil, que sofreu 21 anos de repressão, tem de ser aplaudida de pé e por todos, independe do estilo e gosto pessoal.

Pois bem, 37 anos depois, mais precisamente na sexta-feira passada, finalmente o álbum Massacre foi lançado em seu formato orginal, o vinil. Para completar a comemoração, nada mais justo do que a realização do show de lançamento (aquele mesmo que foi proibido em 1977). E assim foi, às 21h30, no Sesc Belenzinho.

Os trabalhos da noite foram iniciados com a música “Paulicéia Desvairada”, e uma surpresa para muitos: o líder da banda, Oswaldo Vecchione, de gesso e sentando em uma cadeira para apoiar o pé e poder tocar. O fato é que isso não o impediu de fazer um show do caralho, cheio de participações incríveis e várias interações com o público, nas quais, entre uma música e outra, nos contava o que rolou no lançamento do disco e do show original, dando-nos uma verdadeira aula de história e Rock n’ Roll.

Já na segunda música, começaram as participações especiais: nos vocais, ao lado de Oswaldo, Dino Linardi (vocalista da banda Golpe de Estado), interpretando as canções que seriam cantadas por Percy Weiss, morto dia 14/04, em um acidente de carro. As baquetas também foram assumidas por um convidado: Franklin Paolillo, o incrível baterista que já tocou com todo mundo que você pode imaginar (e os que não pode, também).

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O show seguiu com Dino nos vocais até a terceira música. Em “É Soda..É Foda”, a quarta da noite, Linardi deixa o palco, Oswaldo assume os vocais e o baixo é passado para Tony Babalu. Que maravilhosa reunião de amigos!

Seguimos com “Uma Banda Made in Brazil”, sucedida de “Amanhã É Um Novo Dia”, interpretada por Rubão Nardo, o homem de voz poderosa, também ícone do Rock Nacional.

Rubão permaneceu no palco por mais 3 músicas: “Eu Vou Estar” e “Começou a Chuva”, que contaram novamente com Fraklin e Babalu, além de “Você Me Machucou”.

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Segundo frontman da Made in, algumas músicas tocadas ali, não tinham sido planejadas para serem executas ao vivo, quando o disco foi feito em 1977. Entretanto, depois de tanto tempo e expectativa para lança-lo, foi decidido que todas seriam tocadas. Dentre essas “não planejadas para serem feita ao vivo”, está a “Começou a Chuva”, que teve alguns problemas na hora de sua execução. A banda precisou recomeça-la e, ao final, Oswaldo explicou: ” nos desculpem pelos erros, essa é uma daquelas que inicialmente não tocaríamos ao vivo e, bem, culpa é minha, porque acabei quebrando o tornozelo e tivemos muito menos ensaios do que o esperado”.

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Ah, Oswaldo, é claro que perdoamos. Aliás, você não nos deve desculpas! Poucas pessoas levam o rock n’ roll tão a sério, a ponto de ignorar a dor de uma fratura, subir ao palco, para depois ter de voltar de novo ao hospital!

Ainda durante esse momento de interação com o público, tivemos o prazer de ouvi-lo contar sobre toda a história da proibição: “Nós éramos uma das poucas bandas que tinham aparelhagem própria (sic). Muitas bandas que vocês conhecem daquela época, não tocavam ao vivo porque não tinham como(sic). Só para vocês entenderem: se o pessoal (os censores) tivessem confiscado o nosso material naquele dia, provavelmente o Made in teria acabado ali (sic).” Disse ainda que para terem o show liberado, tiveram de fazer diversas modificações na apresentação, além de terem de tirar ou modificar várias músicas do álbum. Não foi fácil, e a cada nova cidade que chegavam, era sempre um mistério se poderiam ou não se apresentar. No entanto, não desistiram. Sorte a nossa!

Dito isso, seguiram com a música título do álbum “Massacre”. Oswaldo então brinca: “foi por causa dessa que proibiram tudo”. A essa altura, todos pareciam encantados com o que presenciavam, tanto que nem percebemos: o relógio marcava quase 23h.

“Queria tocar mais uma que não estava programada, será que da tempo?“, pergunta o líder da banda. E todos gritam: “SIM!”. Queríamos mais é que a noite durasse 37 anos, só para compensar a longa espera. Então, a música extra é liberada “Jack, o Estripador”, Lindíssima homenagem a Percy.

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E, quando parecia que não poderia haver nada mais de melhor, vem o final, com a clássica: “A Minha vida É o Rock n’Roll”. Todos os convidados sobem ao palco, enquanto a galera da platéia ia totalmente ao delírio. Oswaldo apresenta a banda e os convidados, depois, é apresentado por Babalu, ao som do refrão “a minha vida é o Rock n’ Roll”, cantado pelo público. Assim é encerrada essa deliciosa reunião de amigos absurdamente talentosos. Que bom que as nossas vidas são feitas de puro Rock n’Roll!

Obrigada, Made in Brazil, foi uma noite incrível!

Formação atual:
Oswaldo “Rock” Vecchione : Vocal, baixo, guitarra, violão e gaita
Celso “Kim” Vecchione: Guitarra, violão, baixo, teclado e back vocals
OCTAVIO LOPEZ Garcia “BANGLA”: Sax
RICK “MONSTRINHO” VECCHIONE: Bateria
GUILHERME “ZIGGY” MENDONÇA: Guitarra, violão
WANDERLEY ISSA MAFRA “WANDER”: Teclados
IVANI “JANIS” VENANCIO: Backing vocals
EDNEIA CASSILHAS “NÉIA”: Backing vocals

Convidados:
RUBENS “RUBÃO” NARDO – Vocal (participou das gravações do disco e da tour de lançamento em 1977)
ANTONIO M. MEDEIROS “TONY BABALU” – guitarra/baixo (participou das gravações do disco e da tour de lançamento, em 1977)
JOSÉ FRANKLIN PAOLILLO – “FRANKLIN” – Bateria (participou das gravações do disco e da tour de lançamento, em 1977)
DINO LINARDI – Vocal

Confira todas as fotos do show aqui

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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