THE THRILL IS NOT GONE: A HERENÇA QUE B.B KING NOS DEIXOU

Texto: Amanda Cipullo

Histórias são notícias que não envelhecem – e a música faz com que algumas pessoas nunca morram.

A triste  a morte de B.B King tomou, hoje, conta de diversos portais. Aqui, nós não reportamos notícias, mas histórias, e essa é a vantagem que nos permitiu tomar fôlego, sentar e escrever – e como é difícil redigir essas palavras!

A primeira memória musical que me vem a cabeça, entre tantas e todas, é a de ouvir um tal de Riley B. King, no carro de meu pai. Acho que foi assim que descobri o que era música, o que era Blues e quem era a Lucille, que apesar de ser só uma guitarra, tinha um poder diferente das outras: falava. Descobri isso, então: instrumentos, nas mãos certas, falam.”The wailing guitars/ make a man feels all his scars”, já diria Leslie West.

Meu pai, guitarrista e grande fã de Blues, sentia-se imensamente orgulhoso quando eu, com 5 ou 6 anos, dizia na frente dos outros: “na volta a gente vai ouvir B.B, né?”. E, então, entravamos no carro e eu me posicionava de cabeça pra baixo, com as pernas apoiadas no encosto do banco de trás, infringindo todas as leis de trânsito, mas não as da música. Desde aquele momento, imagino que já soubesse: esse era o som que permearia toda a minha vida. Minha alma sempre foi Blues.

Um dia, chegou em casa um tal de “Riding With The King“. Havíamos ido a uma loja compra-lo, estávamos ansiosos para ouvir. Minha nossa, como aquilo era incrível! E esse é um dos CD’s que nunca comprei, talvez como desculpa para poder escutá-lo sempre com meu velho progenitor, pai na vida e na música. Aliás, acredito que o tenha ouvido com pouquíssima pessoas, todas selecionadas a dedo, porque certas músicas, por conta das lembranças a que nos remetem, não podem ser ouvidas com qualquer um. O fato é que hoje, quando acordei, havia uma mensagem no celular de um desses amigos selecionadas a dedo, com a qual compartilhei meu encantamento por esse álbum algumas vezes. Em outras palavras, the thrill is gone, ele dizia. Que notícia triste, cara!

Ano passado, aconteceu quase a mesma coisa:  ainda sonolenta, recebi um mensagem no celular. Outro amigo, outro bluesman: Johnny Winter! “Porra, os grandes tão morrendo”, pensei. Que triste, cara! E, em momentos como esse, eu que sou  bem inclinada a não acreditar que exista nada além disso aqui, tento imaginar uma jam do caralho, rolando em algum lugar entre o céu e o inferno. “Porra, B.B, imaginei que você não viesse mais”, diz Johnny. “Ah, menino, você que vazou muito cedo! Te falei que essa heroína não era bacana! Mas, deixa isso pra lá, vamos tocar!”. Isso porque, em algo lugar dessa ou de outra vida, esse som tem que continuar, e tem que ser ao vivo, por mais que isso pareça estranho de se dizer.

Para alguém que cresceu tendo como base o Blues, a morte de B.B é dessas coisas que nos fazem pensar na vida inteira. Eu provavelmente não estaria aqui se não fosse ele. Não sei quanto a vocês, mas para mim, que sorte tê-lo conhecido, a música sempre é  meio de se conhecer alguém.

Agora, a lembrança das viagens de carro com meu velho, de as vezes em que ele me dedicava alguma música, e o fato de elas terem regido a história que construo desde então, ficam rodando em minha cabeça. Essas são coisas que não mudam, e provam: os grandes não morrem, porque o que nos deixam, sempre continua.

Digo, por fim, como fã e como redatora, a todos os eruditos que reclamam dos “admiradores que só aparecem para homenagens póstumas” ou dos “não tão fãs assim”: B.B King era um cara que transformava o simples em genialidade, isso é Blues, e Blues não é (não deveria ser) elitizado. Não é preciso que se conheça a discografia completa, basta sensibilidade para sentir todas aquelas notas  reverberando pelo seu corpo inteiro. E isso qualquer um é capaz – e tem o direito – de fazer, independente do nível de conhecimento musical. É bom que os chatos se acostumem: quando gente grande morre, o mundo inteiro quer prestar homenagem e, olha, não há ninguém que mereça mais todas elas do que esse King!

Na falta de outras palavras: obrigada, pai. Obrigada, B.B! The thrill is not gone.

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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