Riding With The King: uma reflexão sobre as recentes notícias a respeito da saúde de B.B King

Texto: Amanda Cipullo

Ano passado, se não me falha a memória, quando B.B foi criticado por ter feito uma má performance em um show, postei em meu facebook uma crítica às críticas: caramba, olha  só de quem vocês estão falando! Alguns dias depois, o próprio B.B lançou uma nota, na qual desculpava-se com os fãs e dizia que estava viajando há muitos dias, com a medicação para diabetes mal administrada e, tudo isso, somado aos seus mais de 80 anos, fez com que ele estivesse meio desorientado no dia do show. E, bem., veja só: esse é o cara que, definitivamente, não deve desculpas a ninguém. Pois bem, naquele momento, já dava para perceber que havia algo de errado, afinal de contas, não é meio (muito, na verdade) desumano deixar um senhor de 80 e tantos anos, diabético, viajar horas e mais horas de ônibus, indo de uma cidade para outra e, pior de tudo, sem preocupação com a medicação?

Por essa razão, semana passada, quando saiu a notícia sobre a nova internação e toda a confusão com o empresário, não fiquei surpresa. Infelizmente!

Há alguns anos, algo muito parecido aconteceu com Leonard Cohen, com a diferença de que ele era mais novo do que B.B, e não tinha (tantos) problemas de saúde . Para quem não sabe, explico rapidamente:  Cohen, o homem da voz poderosa, é um poeta e cantor Canadense, conhecido, principalmente,  por músicas como  “I’m Your Man” e “In My Secret Life”. Pois bem, após alguns anos longe dos palcos, nos quais encontrava-se recluso em um monastério budista,  viu-se obrigado a voltar para a estrada (já com seus setenta e tantos anos), pois sua empresária havia lhe roubado uma quantia considerável de dinheiro (muitos milhões, na verdade). Atualmente, Leonard Cohen continua fazendo shows por aí, mesmo depois de ter desmaiado durante uma apresentação, em 2009.

Coisas assim já aconteceram (e ainda acontecem) com milhares de artistas. Sabe aquela gente grande que ganha “muitos dinheiros” por show? Pois é, todos eles já foram roubados e explorados (Tony Iommi, por exemplo,  fala sobre isso em sua biografia “Iron Man”). “Empresários filhos da puta”, você deve pensar. Acontece que se por um lado está a exploração desenfreada da indústria fonográfica, por outro, estamos nós, fãs sedentos por shows, cds e performances exuberantes, inigualáveis e extraordinárias… Nós queremos tudo, custe o que custar. E isso também não é desumano?

Quando alguém critica uma apresentação de B.B King, dizendo que ele não é mais o mesmo, que está decadente, ou qualquer merda do tipo, fico alguns minutos tentando registrar a informação, porque simplesmente não faz nenhum sentido! Artistas fazem arte, não são máquinas de produção em massa; erram, envelhecem e tudo mais, assim como eu e você. “Se não está bem, porque não para?”, dizem outros. Bem, minha gente, até quem está sob os holofotes, muitas vezes, trabalha porque precisa (vide Lemmy Kilmister), Para eles não rolam  essas coisas de férias remuneradas e tudo mais. Faz show, ganha. Não faz, não ganha!

Em meio a tudo isso, me pergunto: até que ponto, nós fãs, não somos também um pouco culpados por essa super exposição a qual alguns artistas são submetidos. E o que exatamente queremos?

Venho de uma época em que o acesso a informação já era bem fácil e, nesses meus vinte e poucos anos de vida, a facilidade só aumentou. Que bom! Mas, de um certo modo, sinto que ficamos um tanto mimados e mal acostumados. Tudo tem que ser para ontem e, se demora, vira obsoleto. Insisto em dizer que arte precisa de tempo, e processo artístico não é fast food. Aliás, fazendo uma comparação bem simplória, isso me lembra a vez em que estava em Amsterdam, morta de fome (por razões óbvias) e ao perceber que meu hamburger estava demorando para sair, perguntei ao garçom quanto tempo mais levaria. Ele, curto e grosso,  respondeu: “menina, isso aqui não é Mc Donalds!”. Pois bem, a vida não é Mc Donalds! E, se  é ótimo que exista muita coisa acontecendo aqui-e-agora, é ótimo também esperar para ouvir um disco novo, ou para ver um show, porque, sabe como é, aquele artista preferido já não faz turnês tão longas e nem com tanta frequência. Tirar a expectativa vulgariza um pouco as coisas. Mais uma vez, insisto: arte precisa de tempo, e artistas estão sujeitos as modificações que os anos lhes impõe, talvez mais do que nós, que temos vidas regradas e comuns.

Com tudo isso, o que quero dizer, é: denuncias, como a feita pela filha de B.B, devem nos fazer pensar que, sim, os grandes envelhecem, e não é porque são pessoas públicas, que não merecem respeito e descanso.

Por fim, que o nosso Blues Boy (que já não é mais tão garoto assim), recupere-se bem, mas sem expectativas de um retorno brilhante aos palcos. Afinal de contas, ele e sua bela Lucille, já nos deram muito. E, nós, B.B, agradecemos imensamente por isso!

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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