Mosters Of Rock: A falta que Lemmy nos fez e os presentes que Judas e Ozzy nos deram

Texto: Amanda Cipullo

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que isso não é exatamente uma resenha, pelo menos, não uma resenha nos moldes clássicos, que fala de técnicas e outras formalidades. Trata-se de um texto passional, percepções sobre o primeiro dia do Monsters of Rock.

Minha história com esse evento, é cheia de reviravoltas, digna de roteiro de filme norte-americano. Meses antes, quando foram anunciadas as atrações, eu já sabia: aquela era a minha oportunidade de ver Motorhead e, talvez, fosse a última, devido a todos os problemas de saúde que o nosso querido Lemmy tem enfrentado. E aí, temos outra história cheia de reviravoltas: o Motorhead já esteve incontáveis vezes pelo Brasil, por motivos que agora não vem ao caso, nunca consegui vê-los ao vivo. Minha maior frustração de show!

Poucos dias antes do festival, ainda era absolutamente incerto se conseguiria ir, até que, assim, tão de repente quanto a maioria das coisas da vida, tudo mudou, e surgiu um ingresso com preço super acessível (obrigada, Rosi!), conseguido pela minha parceira de shows, cervejas e blog, Aline. Então, depois de tanto “vai-não-vai”, horas, filas e confusões, lá estava eu, finalmente, prestes a ouvir: “We are Motorhead, and we play ROCK N’ROLL!”. Até que sobe um cara no palco e diz que tem uma má notícia. Sinto um prenúncio de ataque cardíaco. Não podia ser verdade! Do meu lado, gente chorando, gente xingando. E eu, estática, sem conseguir dizer nenhuma palavra.

Inúmeras coisa passaram pela minha cabeça no momento fatídico do anúncio, mas foram bruscamente interrompidas, quando um babaca qualquer proferiu: “Ah, o Lemmy deve estar de ressaca! Tomou todas e não aguentou”. Com sangue nos olhos, segurei as palavras para evitar briga.
Meu filho, como assim ressaca? Você tá ligado que esse é o LEMMY? O cara  tem de bebida o tempo que você tem de vida!

Os fãs, às vezes, são extremamente cruéis e mimados, e isso me aborrece absurdamente! Acredito que todo mundo que conheça minimamente a trajetória da banda, entenda que esse é um momento extremamente delicado. Lemmy não está bem há um certo tempo. Em suas últimas aparições, é visto sempre muito mais magro e abatido. Recentemente, colocou um marcapasso. Tem 69 anos, diabete e alguns outros problemas inerentes a uma vida de rock n’roll. Na verdade, é um privilégio imenso saber que, ainda assim, o cara continua na estrada para fazer o que mais ama e, consequentemente, o que nós mais amamos também. Só que dessa vez não deu e, devemos ser honestos, talvez não dê mais. Justamente foi esse o motivo que, mais tarde, me levou às lágrimas no (des)conforto do banheiro químico, porque pior do que a frustração de não poder vê-lo ao vivo, é saber que, de certo modo, estamos presenciando aquilo que nunca imaginamos: Lemmy fora dos palcos. E, garanto, se dói para nós, deve doer muito mais para ele.

Como todos já sabem, a forma que a organização do evento encontrou para amenizar a notícia, foi fazendo uma jam entre os integrantes do Motorhead, Phil Campbell (guitarra) e Mikkey Dee (bateria), e Sepultura. Em primeiro lugar, que presente de grego para os caras do Sepultura! Segurar a onda de entreter um público extremamente frustrado, não é nem um pouco fácil! É preciso dizer que os caras tem culhões para aceitar essa e, no geral, desempenharam bem o papel triste que lhes foi designado, mas confesso que não posso falar muito sobre. Nesse momento, preferi me retirar de perto do palco, e chorar no banheiro químico, como já disse.

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Bem, a noite poderia ter acabado ali, mas o show tinha que continuar (sempre tem) e ainda havia muito pela frente.

Nunca fui a maior fã do mundo de Judas, mas respeito absurdamente o som da banda e, caramba, que surpresa boa vê-los ao vivo! Até porque, quem nunca quis ver Halford deixando “Breaking the Law” para a platéia cantar, que atire a primeira pedra!

O show, com meia a hora a mais de duração, foi impecável. Rob, qual é o seu segredo, meu filho?

Vale destacar também as músicas: “Hell Bent for Leather”, com a famosa entrada de moto no palco (outra coisa que eu queria muito ver); “Painkiller”, que acho uma das melhores do Judas; e “After Midnight”, já no bis, fechando a apresentação muitíssimo bem!

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De repente, já era quase 22h30, ai me lembrei que tinha um encontro importante: Ozzy Osbourne! Já o havia visto antes, duas vezes, e é sempre um prazer revê-lo, mas em meio as recentes frustrações, tinha me esquecido um pouco disso, porém, não por muito tempo!

Extremamente pontual, antes de entrar no palco, já podíamos ouvir aquela voz inconfundível se comunicando com a platéia. As lagrimas, mais uma vez, foram inevitáveis e, quem viu um Ozzy levemente abatido em 2011, entende o que estou falando. Naquela época, em meu primeiro show do avô das trevas, pensei que seria provavelmente a última oportunidade de vê-lo. Ledo engano! A sensação que tenho é que deva existe algum elixir de rejuvenescimento, que faz com que esse motherfucker fique cada vez melhor. Seria o álcool ou só rock n’roll? Enfim, não importa, o que importa é que assistir a um show de Ozzy, é  histórico e memorável. Louco, como sempre, jogando jatos e mais jatos de água no público, e vociferando “I can’t fucking hear you!”. E a gente grita mais e mais e mais. Tudo por você, Ozzy!

Show clássico, com um setlist que todos já imaginavam, mas que nunca deixa de ser incrível. Os trabalhos começaram com “Bark At Moon”, seguida de “Mr. Crowley”, tudo assim, logo de cara, fazendo com que galera pirasse absurdamente. Em “War Pigs” , mesmo depois de já tê-la ouvido com a formação (quase) original do Black Sabbath, não teve como não sentir aquele arrepio forte na espinha. Também rolou “Iron Man”, “Fairies Wear Boots” e, no bis (agitado pelo próprio Ozzy), “Paranoid”, que causam a mesma sensação de: “puta merda, não acredito que estou ouvindo isso ao vivo de novo”; detalhe, não apenas ao vivo, mas também muitíssimo bem executadas, fazendo com que, por um momento, acreditássemos que estivéssemos de volta aos anos de 1970.
Minha surpresa foi a ausência de Mama I’m Coming Home, e fiquei me perguntando se o set foi enxugado por motivos de tempo, ou qualquer outra razão. Em todo caso, seria uma bela homenagem a Lemmy, já que ele foi peça fundamental na composição da música.

Ao final, depois de ouvir o famoso “God bless you”,  começou a tocar “Changes”, versão gravada com Ozzy e sua filha Kelly, que fez com que, por alguns segundos, tivéssemos a impressão de que haveria mais! Enfim, mas não teve. E no restou caminhar até a saída, abarrotada de gente, com um sorriso imenso no rosto, pensando: Ah, Ozzy, que bom que você veio!

É inegável, apesar dos eventuais problemas, vamos levar para sempre tudo o que aconteceu nesse Monsters.

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Na volta para casa, ainda com a cabeça rodando, tentei assimilar todos os acontecimentos da noite. Dessa vez, sem ter os pensamentos bruscamente interrompidos por algum babaca. O fato é que todo mundo tem alguma história com suas bandas e artistas preferidos. Ozzy, minha primeira k-7; Motorhead, apresentado por meu pai, que disse, certa vez, que me mostraria algo que mudaria a minha vida. Dai pra frente, o encantamento virou paixão. Aquele era o meu som, definitivamente.

O fato é que a música já me salvou de inúmeras maneiras, todos os amantes de Rock n’Roll devem entender isso, cada um com seu caso, que no final é a mesma coisa.

Alguns anos atrás, em uma madrugada de domingo para segunda, assim como essa madrugada em que escrevo, numa época estranha, quando fazia tudo certo e, mesmo assim, parecia que havia algo de absolutamente errado, assisti ao documentário “Lemmy: 49% motherfucker, 51% Son Of A Bitch”.

“Eu me lembro do mundo antes do Rock n’Roll”, diz ele em determinado momento, falando das bandas de sua época, como Beatles, que mudaram sua vida. Falando do rock, que pautou suas escolhas e tudo o que veio depois. Não havia como não me identificar. Naquele momento, todas as coisas que não havia entendido completamente em meu primeiro contato, diante de todas as informações passadas pelo meu pai, fizeram sentido: rock n’roll é subverter a ordem, encontrar o seu próprio caminho, que não é certo, nem errado, mas é seu.

Sempre achei uma bobagem enorme isso de idolatrar pessoas, já que essa maldita (ou bendita) condição humana nos iguala. Bem, Lemmy nunca foi o cara certo, justamente, por isso, virou ícone. Sobretudo, justamente por rejeitar o status clássico de rockstar, e deixar bem claro que é só cara que faz o que gosta, e toma (ou tomava) umas no rainbow nas horas livres. E é exatamente essa simplicidade e despretensão que explica tantos rostos tristes ao saberem da ausência do mestre Kilmister, porque ele representa a autenticidade que muitos de nós buscamos; em suma, a subversão da ordem, que faz com que o que é aparentemente errado, mas nos é inerente, pareça tão certo.

O que virá daqui para frente, ainda não sabemos, mas não importa como seja, só temos certeza de que ele vai cair atirando, sempre munido de seu cinto de balas, porque ele é o Motorhead, e isso é Rock n’Roll.

Fotos: http://musica.uol.com.br/

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Fábricia Lima disse:

    PARABÉNS é o q posso dizer diante de tal texto. Confesso q chorei ao ouvir-te falando de dentro para fora do q representou esse festival e mais ainda do q é Rock n rol na sua vida.

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    1. Amanda C disse:

      Obrigada, Fábricia! Ficamos muito felizes com o comentário! Viva o Rock n’Roll!
      Abraços!

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