Chaos Fest: a velha e nova guarda do hardcore e do metal nacional

Texto e fotos: Amanda Cipullo

A cena Underground, de um certo modo, sempre fez parte da minha vida. Esse lance de descobrir que o Rock n’Roll, e suas diversas vertentes, mantém-se vivo e pulsante, bem ali, naquela esquina em que menos se imagina, é algo que me atrai muito. E, arrisco dizer: talvez, seja um dos maiores prazeres que essa cidade louca, “que te engole e te cospe”, proporciona para todos que gostam de música.

Dia 19 de abril, no Cine Jóia, rolou um desses momentos preciosos: o Chaos Fest, evento que reuniu bandas pertencentes ao cenário Underground de hardcore e metal, com o objetivo de promover a cena, criando espaço tanto para o que há de novo, quanto para a galera que já é calejada pela estrada. Iniciativa incrível e absurdamente necessária, diga-se de passagem.

Bem, por volta das 18h, como previsto na programação, e praticamente sem atrasos (o que é ótimo), começou a abertura do festival, com seus primeiros minutos dedicados a uma homenagem ao grande Percy Weiss, ex-vocalista das bandas Made in Brazil e Patrulha do Espaço, que faleceu em um acidente de automóvel no último dia 14.

Na sequência, o palco foi tomado pela banda B.A.R (Bebuns Assumidos do Rock), que iniciou os trabalhos da noite com um vídeo de abertura divertido, em que mostrava os integrantes em um… é, obviamente, em um bar. Confesso, não os conhecia, mas isso realmente não fez muita diferença, porque essas letras de “bêbados e boêmios da noite”, sempre me conquistam instantaneamente, é quase inevitável. O fato é que eu, e mais as poucas pessoas que chegaram cedo, estavámos curtindo bastante o som dos caras. Aliás, por falar em “som”, vale ressaltar que logo no comecinho, a acústica estava bem boa, dava para ouvir bem os instrumentos e, principalmente, o vocal.

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“Se vocês ainda não estão curtindo, é porque não estão bêbados o suficiente”, e com essa frase despretenciosa, os meninos seguiam com as músicas, criando um ambiente de conversa de bar, coisa que nós, bêbados também assumidos, adoramos! Acredito que quem estava ali e não conhecia o som, deve ter pensado a mesma coisa que eu: que bom que chegamos cedo!

A segunda atração da noite ficou por conta da Seven Calls: power trio sem frescura, uma das coisas mais louváveis e difíceis de se fazer com qualidade. E, bem, no teste da qualidade, os meninos estão aprovadíssimos. Outra banda que não conhecia e que ganhou meu respeito (tá vendo, tô falando, sair de casa em domingos chuvosos vale a pena). Nessa altura, o Cine Jóia já estava um pouco mais cheio e, tenho a impressão que, talvez, isso tenha levado o técnico de som a aumentar o volume. E, bom, ai tivemos um problema, que seguiu nos outros shows! Em alguns momentos, era realmente difícil ouvir o vocal ou distinguir bem os instrumentos. Na verdade, acabei indo procurar o som dos caras depois, nos youtubes da vida. Sim, volto a dizer, banda boa, power trio de altíssima qualidade, mas alí, na hora, ficou um pouco complicado perceber totalmente isso, simplesmente porque a altura do som fazia com que não fossem possível ouví-los bem.

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Seguimos a noite com os caras da John Wayne e, puta que pariu (é, desculpem o palavrão, mas PUTA QUE PARIU). Presença de palco é para poucos e esses brothers são daqueles que não só a tem, como sabem exatamente o que estão fazendo. Arrisco dizer que foi um dos melhores shows da noite e, na verdade, teria sido o melhor se… Bem, de novo,  volume no talo fez com que fosse difícil entender algumas coisas. Nesse caso, eu sabia que os caras são fodidos, por já tê-los ouvido antes, mas fiquei pensando naqueles “uns e outros” que ainda não os conheciam, como é que fica? Será que foram atrás do som depois? Espero que sim, na verdade, acredito que sim, porque como eu já disse, presença de palco é algo que geralmente nos faz querer saber mais sobre aquilo – a empolgação da galera que tava ali “colada na grade”, também.

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Na sequência, veio a  Worst e, de novo, puta que pariu! A casa não estava exatamente lotada, mas tinha gente o suficiente para fazer rodas de respeito! Puta show, com o mesmo problema dos outros dois: o som! Imagino que a galera que estava ali curtindo, não tenha se preocupado muito com isso, afinal de contas, se você conhece a banda e tá bangueando alucinadamente, o volume elevado e as implicações que isso causa (surdez e, principalmente, impossibilidade de distinguir bem cada instrumento, sobretudo, de ouvir o vocal), ficam meio que amenizadas pela emoção do momento. Mais uma vez, vale ressaltar, quando digo som, não estou me referindo a qualidade dos música, mas sim da técnica! Aliás, esse é um problema que definitivamente não está, quase nunca, nas mãos das bandas.

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A última atração da noite e, a que eu acreditava ser a mais esperada, ficou por conta do Torture Squad. Falar desse show é meio óbvio, porque, bem, é Torture e, mais uma vez, puta que pariu, se tem gente que realmente sabe a que veio, são esses caras, os véios de guerra que nunca perderam o espírito “podrera de qualidade”. Amilcar quebrando tudo na batera, Castor e André Evaristo sendo brilhantes, como sempre! Um show do caralho que, para a minha surpresa, contava com menos gente na casa, fato que me fez pensar “perae, gente, para onde vocês foram?”. O Som, dessa vez, apesar de obviamente alto, estava mais bem equalizado, em outras palavras, dava para ouvir bem de todos os pontos da casa, e encerraram muitíssimo bem o evento, dando uma alegria enorme para os headbangers que conseguiram se manter em pé até o final.

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Assistir a esse evento, me fez pensar em muitas coisas, em primeiro lugar, que a cena underground continua fazendo parte da minha vida, que bom! Mas ai, algumas coisas ficaram girando na minha cabeça. Como eu já disse, os problemas com a acústica podem ser matadores para as bandas iniciantes. Eles não tem culpa, muitas vezes, nem os próprios técnicos de som têm. No final das contas, a verdade é que esses eventos, com mais de uma banda, costumam ser bem complicados por aqui. Já fui em inúmeros shows grandes em que o som estava totalmente cagado, a diferença é que as pessoas tendem a perceber menos isso quando se trata de uma banda que já conhecem e/ou gostam, afinal de contas, já sabem as músicas e, na maioria dos casos, só querem ver os artistas de perto, não necessariamente ouví-los. Feliz ou infelizmente, essa regra não pode se aplicar às bandas menos conhecidas, já que estão ali para serem “descobertas” por um maior número de pessoas, é importante que haja uma preocupação maior com o som. E, entendam, meu objetivo ao dizer isso não é dar patada em ninguém. Existe um velho hábito em alguns críticos de ressaltar sempre os pontos negativos da coisa e apontar os culpados. Não, nunca fui a favor disso, até porque, como falar mal de uma iniciativa tão importante para o cenário nacional? A reflexão que gostaria de levantar, portanto, é: existe um preconceito grande com o cenário underground, via de regra, algumas pessoas crêem que bandas novas não estão preparadas para fazer um som bom (o que é uma mentira absurda) e que esse tipo de festival costuma ser mal organizado (o que às vezes acaba acontecendo). Esse, definitivamente, não foi o caso do Chaos Fest. Em termos de organização e pontualidade, foram impecáveis, mas essas questões técnicas me fazem pensar: como vamos conhecer novas bandas, se não é possível ouví-las direito? Enfim, essa foi apenas a primeira edição e, acredito que exista um empenho imenso de toda a equipe para fazer com que esse evento se repita, e que seja cada vez melhor. Por essa razão, é compreensível que uma coisa ou outra que não saiam como o planejado, o começo é assim mesmo, não tem como escapar.

O segundo ponto que gostaria de levantar, acho que é bem mais importante: a casa deveria ter, sei lá, umas 100 pessoas?! Não é possível que em São Paulo, só cerca de 100 pessoas que curtem hardcore e metal, estivessem livres no final de semana do feriado. E, olha, a culpa disso definitivamente não foi da divulgação, que como pude acompanhar pelas redes sociais, foi muito bem feita.

Em um determinado momento, o vocalista da John Wayne falou um pouco sobre a participação da banda no Rock in Rio, algo como: “Ao contrário do que muita gente diz, nós ralamos muito para estar lá”. Posto isso, pergunto para você, cara leitor, headbanger, rock n’rollers mal encarado: é fácil acusar as bandas de comprarem espaços em grandes eventos, não é mesmo? Mas e comparecer aos eventos menores, dando apoio ao cenário local? E a disponibilidade para sair daquele mundinho de mesmas-bandas-de-sempre?

Por alguma razão, e não sei precisar exatamente qual, tenho a impressão que algumas pessoas ficam “doídas” quando vêem um som nacional, vindo do cenário underground, em grandes festivais, como no caso da John Wayne.  E não consigo colocar em palavras o quanto isso é absurdo! Imagine só se desse a louca no Medina e ele fizesse um festival exclusivamente rock n’roll, trocando os artistas de estilos duvidosos por todas as bandas que participaram do Chaos Fest? Seria foda, não? É, mas certamente haveria uma galera reclamando, criticando e fazendo aquelas acusações de “claro que estão lá, eles pagaram para isso”. No final de tudo, é essa mentalidade “chupa-rola-de-banda-grande” que me mais me assusta. Enfim,  isso é apenas um desabafo.

O resumo da ópera, é que aquela velha ladainha que venho repetindo: que bom que existem iniciativas assim, espero que elas cresçam e se espalhem por aí, cada vez mais. Da mesma forma que espero que as pessoas descubram como pode ser compensador sair de casa em um domingo chuvoso, e descobrir uma caralhada de gente boa. As bandas estão aí, os festivais e iniciativas também, e não adianta nada reclamar dos eventuais problemas técnicos, com a bunda na cadeira, sem mover um dedo para dar visibilidade a elas e fazer com que tudo isso seja cada vez melhor. No final das contas, é com essa parceria entre bandas, organizadores e público, que todos saem ganhando.

Por fim, parabéns às bandas e os organizadores, e que venham muitos outros Chaos Fest.

Confira as outras fotos aqui Chaos Fest

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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