Crônicas de Rock: Amsterdam, Coffee Shops, Jim Croce e The Faces I’ve Been

Texto: Amanda Cipullo

Estar em um país estranho, sabendo das limitações do seu inglês, é uma experiência engraçada. Mas, acredito que tudo se torne mais engraçado, se esse país for a Holanda, sobretudo, se a cidade for Amsterdam.

Não posso dizer com precisão o que aconteceu, afinal, como é do conhecimento de todos, estar em Amsterdam tira um pouco o lado preciso das coisas. Inclusive, se não tivesse provas concretas do ocorrido, possivelmente, todo esse relato poderia se tratar apenas de uma alucinação.

O fato é que, naquele dia, poucas coisas da programação deram certo. Fazia um frio do caralho e eu andava pelas ruas procurando o lugar em que deveria retirar um copo de chopp, brinde que havia ganhado depois de tomar umas na Heineken Expirience, pouco antes de uma longa visita a mais um coffee shop.

 

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Bem, se em São Paulo sou perdida, em outra cidade, falando outra língua, não seria diferente. Rodava, rodava e, de repente, lá estava eu, no mesmo lugar. E foi assim, à deriva, sem ideia de onde estava, e de como voltar ao hostel, que virei em uma esquina diferente e encontrei uma loja de discos, velha e com cheiro de poeira, do jeito que as lojas de disco tem que ser! Resolvi, então, que deveria entrar, apesar de ter jurado que não compraria nada, ou melhor, só compraria se fosse algo muito barato e exclusivo.

O que eu não sabia é que lá dentro tinha de tudo, desde uma coleção incrível de thrash, que daria inveja a qualquer headbanger, até Chet Bekar. E os preços até que eram amigáveis, mas não o suficiente para o bolso de uma mochileira.

Rodei por umas três ou quatro secções, até me deparar a letra J.

Janis Joplin,
Jim Croce,
Jimi Hendrix… “Pera, Jim Croce? Como assim Jim Croce? Essa maconha de Amsterdam é boa mesmo, hein”, pensei, e fiquei ali parada, com cara de idiota, olhando para os 4 álbuns que tinham. “Não é possível. Deve ser caro. Puta merda, só cinco euros? Puta que pariu, eu devia ligar pra alguém. Eu devia mandar mensagem para o meu pai. Não, calma, olha direito o nome. Puta merda, é Jim Croce mesmo!”

Como eu disse, haviam quatro opções e a escolha era difícil. Pensei um pouco e peguei o “The Faces I’ve Been”, com Which Way Are Yo Going, King’s Song, Mississippi Lady, Chain Gang Medley e Old Man River, do lado A; e The Way We Used To, Maybe Tomorrow, Stone Walls, I Remember Mary, Country Girl e Charlie Green Play That Slide Trombone, do lado B.

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Talvez não seja o melhor do Croce, mas tinha algumas das minhas músicas preferidas; aquelas que, de certa forma, constituíram grande parte das minhas memórias musicais, como as do tempo em que eu era uma criança bochechuda e cheia de cachinhos, que deitava no banco de trás do carro, com as pernas para cima (é, naquela época a gente burlava as leis de transito) e dizia “pai, coloca de novo Child Of Midnight”; de quando meu pai ouvia fitas cassetes dentro do carro, para não correr o risco de ter seus CD’s danificados ou roubados. Talvez, da época em que comecei a entender que esse negócio de música mexe mesmo com a gente e, por conta disso, aprendi a criar histórias de pano de fundo para cada uma dessas canções ouvidas no banco de trás do carro.

Coincidentemente, essa também foi a época em que me pai mergulhou profundamente nas raízes Country. É, Jim Croce não é Rock n’Roll, mas, provavelmente, se você é fã de Blues e Southern Rock, vai entender porque o som desse cara era figura sempre presente entre os cassetes guardados no porta-luvas.

Entende? Não tinha como não me apaixonar.

Em janeiro de 2014, quando por acaso trombei com um de seus discos, em uma loja do outro lado do oceano, em um lugar em que jamais imaginei estar, me lembrei dessas coisas engraçadas da vida e pensei que essa sensação de reviver a nossa própria história, por meio da música, deveria ser mais do que um conto de viagem. Talvez, dai que tenha se fixado definitivamente essa ideia de contar casos, que tenho tentado produzir por aqui. Enfim, o que aconteceu depois, não me lembro direito, só sei que fui até o caixa, dei o dinheiro e esperei o troco. O cara que ficava ali, usava um moletom do Kill’m All. Sorri para e disse que ele tinha um belo casaco. Ele não retribuiu o sorriso e devolveu o disco dentro de uma sacola.

Sai zonza de lá, sem entender direito se a maconha de Amsterdam era muito forte ou se a vida que era muito louca. Andei mais três ou quatro quadras e, curiosamente, cai em frente a loja em que deveria retirar o meu brinde. Depois, comi alguma coisa perto da Dam Square e voltei para o hostel.

Quanto ao disco, consegui fazer com que ele viajasse em segurança de Amsterdam a Londres, de Londres a Madrid e, finalmente, de Madrid a São Paulo. Infelizmente, não posso dizer o mesmo do meu diplomada de “tiradora de chopps Heineken”. Bom, mas isso é outra história…

 

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Aliás, se você não conhece o som que esse cara fazia, tá na hora de conhecer!

Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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