Kiko Loureiro no Megadeth e os mimimis que têm rolado nos últimos dias

Texto: Amanda Cipullo

Semana passada, depois de muita especulação, finalmente foi anunciado que, o guitarrista Kiko Loureiro, será o novo membro do Megadeth. Aqui, nesse belo mundo virtual, nunca faltam cabecinhas e cabeções, sejam elas headbangers ou não, para opinar sobre esse tipo de assunto; por outro lado, momentos assim, cheios de manifestações favorávies e contrárias, me fazem pensar, em primeiro lugar: minha nossa senhora do metal, por que caralhos algumas pessoas se sentem tão donas das carreiras de alguns artistas, a ponto de se acharem aptas para julgar o que é certo ou não para seus futuros profissionais?

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A eles, digo: tá tudo certo, galera! O cara tá só dando sequência ao seu trampo, fazendo grana… Nada diferente do que os executivos fazem, galgando os degraus da firma, sabe? Pra que tanto mimimi, então?

Enfim… Antes de sentar meu traseiro na cadeira e começar a redigir isso, li alguns textos, conversei com algumas pessoas e, bem, de um modo geral, a questão é vista de modos bem diferentes. Então, ok, vamos por partes, começando pela minha própria experiência e percepção: Angra não é uma banda que constitui o som que ouço; apesar de respeitar todos os integrantes, músicos excepcionais, nunca foi algo que fez muito a minha cabeça. Por outro lado, Megadeth, desde os meus 15 ou 16 anos, teve presença constante em minha formação musical. São bandas diferentes, não necessariamente o fã de uma, será da outra. Estilos destintos, com certas semelhanças, e que se igualam na competência, isso é inegável (é, cabecinha, contra fatos não há argumentos, por mais que você não curta determinado som, é sempre importante reconhecer a competência dos músicos que o fazem, seja no estilo que for).

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O que talvez muita gente não entenda, é que por trás das camisetas surradas, dos cabelos longos e tudo mais, existe uma empresa. Sim, toda a banda profissional é uma empresa, e isso não é demérito, nem traição do movimento; é profissionalismo, ossos do ofícios, indispensável para qualquer um que quer viver de música.

Kiko Loureiro tem uma carreira consolidada, com vários fãs por aí, e, bom, como já diria o Tio Ben – sim, ele mesmo, o tio do Spiderman: grandes poderes implicam em grandes responsabilidades. Ao deixar de ser só mais um menino cabeludo que toca guitarra, e entrar para o hall dessa gente grande que sabe o que está fazendo (isso muitos anos atrás, diga-se de passagem), Kiko assumiu os riscos. No caso, o de receber inúmeras críticas para cada novo passo. Digo isso, porque, se você faz parte do grupo de pessoas que não gosta do cara e, em consequência disso, não gostou da escolha, sinto em dizer, mas a sua opinião unilateral não faz muita diferença para o Megadeth, para o Angra, para Loureiro ou para o Titio Dave, então, vamos pular essa parte, ok?

Seguindo, entramos no campo das coisas perigosas, as questões que fazem com cabeludos(as) e descabelados(as) (carecas e etc também, não se sintam excluídos), munam-se de fatos históricos, erudição de rock n’roll, cerveja e outras coisas, para defenderem, com cusparadas de fogo, seus pontos de vista quando indagados: afinal de contas, isso faz alguma diferença para o cenário de rock nacional, sobretudo, para o de metal?

Antes de responder, vamos contextualizar: se você, não importa sexo, religião e orientação sexual, foi ou é guitarrista, já deve ter se imaginado tocando ao lado de seus ídolos. A verdade, porém, é que para a maioria, isso fica só no sonho, ou restrito às quatro paredes do quarto, lugar em que, a portas fechadas, você frita na guitarra (com o volume do ampli reduzido, para não acordar a mãe, o pai e o vizinho), tentando acompanhar as músicas do CD novo de algum dos seus deuses das palhetas. Mas, há também os casos em que o sonho, aos poucos, torna-se realidade. Primeiro, a pessoa da um passo fora do quarto, monta uma banda, depois outra… Na real, monta muitas banda e, às vezes, vê-se obrigada a ter um emprego paralelo para sustentar as atividades musicas (e não criar grandes atritos familiares, claro). Então, chegam os calos nos dedos, os primeiros shows e a necessidade de se aperfeiçoar. Is a long way to the top, e o rock n’roll, no final das contas, não é só para os melhores, mas para os mais fortes, aqueles que continuam apesar de um milhão de coisas contrárias.

Para alguns desses, acontece tudo o que os outros sempre quiserem. E posso citar aqui, por exemplo, o menino Jeffrey Phillip Wiedlandt, de New Jersey, que cresceu ouvindo Sabbath e Zeppelin e, em um determinado momento, lá pelos idos dos seus 18 anos, resolveu sair do quarto e ir pro mundo. Até que, certo dia, descobriu que seria o novo guitarrista de um tal de Ozzy Osbourne. Nessa época, o menino já era conhecido como Zakk Wylde, e continua até hoje. Depois disso, virou gente grande de verdade; ganhou músculos e mais técnica; consolidou sua carreira e escreveu seu nome na história do rock n’roll, muito em função dos anos de parceria com Ozzy, claro, porém isso não o impediu de dar sequência ao seu próprio som, ao qual, hoje, dedica-se exclusivamente, e arrasta milhares de fãs mundo a fora (tá aí a família Black Label que não me deixa mentir).

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Ok, mas o que tudo isso tem a ver com Kiko, com rock nacional, o guitarrista que só toca no quarto e a escolha de Mustaine? Tudo! O fato de um brasileiro – que certamente já foi um desses meninos que fritava na guitarra, dentro do próprio quarto -, ser nomeado como peça importante na formação de uma banda do porte do Megadeth, faz com que a gente acredite que, puta que pariu, não é só do outro lado do hemisfério e/ou do oceano, que acontece esse tipo de coisa. Lógico, já existem bandas nacionais que conseguiram consolidar seu som fora daqui. Lógico, Kiko não é o primeiro e não vai ser o último; talvez não seja necessariamente o melhor, mas não há como negar, é um dos mais fortes e está abrindo as portas para que vários outros meninos e meninas, consigam ir além das restrições das quatro paredes de seus quarto.

“Ah, mas ele vai ser só um músico contratado, faria mais pelo cenário nacional se estivesse fazendo o próprio som”, bradam alguns. Acho difícil afirmar isso, esse tipo de coisa depende de vários fatores. Sim, inicialmente, ele é apenas um músico contratado (e, convenhamos, é um “apenas” que muita gente queria ser), mas o fato é que não nos é possível precisar o que exatamente esse acontecimento renderá para a carreira de Loureiro. Pessoalmente, acho difícil que ele fique estagnado como só mais um, até porque, entrar para uma banda não é sentença de morte, né galera! Por outro lado, podemos enxergar o respeito e o apreço pelo músico nacional, fora e dentro do Brasil, crescendo e criando raízes, com cada vez mais referências.

Muitos fãs de rock, queixam-se do fato de que, por aqui, o símbolo nacional está longe de ser headbanger, então, porque reclamam tanto quando um músico brasileiro é reconhecido internacionalmente? Sempre vai haver uma ressalva do tipo “ah, mas não está cantando em português”, “ah, mas é só um músico contratado”, “ah, mas eu não acho que ele seja tão bom… “. Quanta besteira, quanta chatice!

Se existe algo que talvez falta no Brasil, não é de forma alguma talento para se produzir música de qualidade, mas sim respeito, admiração e união, sobretudo, entre a própria classe de músicos. Já parou pra pensar que, geralmente, quando alguém sobe, leva um monte de gente junto? Pois é. Então, não se preocupem, vai ficar tudo bem com o Angra, e o Titio Dave já é grandinho para saber as escolhas que faz. No final, todo mundo sai ganhando, principalmente nós, que queremos ver cada vez mais essa galera com dedos calejados, saindo dos quartos e dos muquifos, pra ganhar palcos maiores.

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Sobre a autora:

Amanda Cipullo
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Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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