Em 2012 eles ainda pareciam maiores do que a vida

Texto: Amanda Cipullo

No ano novo de 2012 , a festa acabou dando errado. Eu, minha irmã e um ex-namorado, passamos a virada sem grandes agitos, dividindo uma garrafa de whisky, algumas cervejas e muitas músicas. Lá pelas quatro da manhã, aconteceu o fato mais exitante da noite: um documentário sobre a trajetória o fotógrafo de bandas Bob Gruen. Demorei um pouco para associar o nome a pessoa, porém, aos poucos, fui me lembrando que já havia visto aquelas fotos antes, em 2000 e alguma coisa, numa exposição na FAAP –  naquela época, ainda não conhecia bem a identidade do homem por trás das lentes.

Ainda em 2012, comecei um curso de fotografia, me apaixonei mais ainda por Gruen e dediquei um tempo fora do comum para achar o tal documentário na internet, mas nunca o encontrei. Ironicamente, meses depois, Gruen voltou ao Brasil para uma nova exposição. E eu tinha que conhecê-lo.

Juntei alguns trocados, comprei o livro e fui até a loja em que ele estava distribuindo autógrafos. Era uma figura engraçada: alto, cabelos brancos e uma cara de quem já viu de tudo nesse mundo. Pediu para que escrevesse meu nome em um papel, pegou uma caneta preta e anotou na primeira página: “ For Amanda,  rock on! SP 2012”.

Me lembro de pensar “bom, isso já valeu pelo ano todo”.  Acontece que quando se  trata de Rock’N’Roll,  a gente nunca sabe o que virá pela frente – e sempre vem mais. Sempre.

Das muitas páginas e fotos que continham ali, uma sempre me chamou atenção:  Kiss em Nova York, no ano de 1974, ao lado, um pequeno texto que dizia: “ seu show era muito barulhento, um grande espetáculo, cheio de explosões, fumaça e luzes brilhantes. Eles pareciam maiores do que a vida”.  Em 2000 e alguma coisa, na primeira exposição que vi do Rockers, livro de Gruen,  ainda era uma criança bochechuda e cheia de cachinhos, mas me lembro de olhar para essa mesma foto, só que em um tamanho muito maior;  de ouvir meu pai lendo exatamente o mesmo texto e de pensar – e talvez até dizer – que: “puta merda, esse deve ser um show imperdível”.

Por sorte, em 2012, quando anuciaram a vinda da banda ao Brasil, eu já pagava pelos meus próprios ingressos, então, não havia desculpa. Mais uma vez, juntei alguns trocados – muitos, na verdade   -, comprei algumas cervejas e, ao lado de dois amigos, me posicionei em um lugar em que pudesse ver mais de perto possível o grande espetáculo, cheio de explosões, fumaças, luzes brilhantes e maior do que a vida.

Faz quase dois anos e ainda me lembro: Detroit Rock City, que veio logo após um vídeo introdutório e uma entrada poderosa, com os quatro descendo de uma plataforma para o palco. Mas, com o passar do tempo, a memória tende a amarelar, então, afim de resgatar tudo isso, procurei vídeos na internet. Por sorte, achei o show na íntegra – naquele dia, o Terra transmitiu tudo ao vivo da Arena do Anhembi. Dei play, pensando em uma possível depressão – depois de vê-los de perto,  talvez fosse frustrante rever tudo através de uma tela de computador. Bullshit, a música sempre nos permite reviver algumas sensações e arrepios e isso nunca é frustrante.

Foi então que percebi que não adiantava descrever o setlist e as performances genias de cada um deles no palco, sabe? Existem milhões de vídeos que podem exprimir isso muito melhor do que algumas palavras. Mas posso falar do arrepio ao ouvir os primeiros acordes do Detroit Rock City, seguida de Shout It Out e Dr Love; de ter ficado sem voz em I love It Loud e de como é incrível que cada integrante da banda tenha um papel único em cima do palco – verdadeiras almas de rockstar -, que nos faz sentir como se estivéssemos em uma máquina do tempo, de volta aos anos de ouro do Rock’N’Roll; da menininha de uns cinco anos, com maquiagem de catman, sorridente nos ombros do pai; de Gene Simmons cuspindo sangue e sendo suspenso por um cabo, e Paul Stanley indo em uma tirolesa para outro palco, há poucos metros de nós – isso me  faz lembra porque escolhemos nos posicionar ali, já sabíamos o que ia acontecer e, mesmo assim, quando aconteceu, não deixou de ser surpreendente. No bis, I Was Made For Lovin You, Rock’N’Roll All Nite e milhões de fogos de artifício, como se a festa que miou na virada do ano, fosse ali, naquele momento.

Saímos mortos, sem voz,  nos arrastando pela Arena Anhembi, mas com uma sensação engraçada, impossível de descrever. No final, eu já sabia que seria assim desde aquela exposição em 2000 e alguma coisa. Bob Gruen tinha razão: “they seemed larger than life”.

Sobre a autora

Amanda Cipullo
11760115_10203186896352189_9001298901733721022_n
Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s