Crônicas de Rock: A Perua do seu Roberto e as descobertas musicais

Texto: Amanda Cipullo

Todo dia era exatamente a mesma coisa: seis e quinze, ele me pegava na porta de casa, raramente com algum atraso. Eu entrava sonolenta e ia para o último banco. O Seu Roberto gostava de ouvir a Mix, que nunca chegou perto de ser rádio rock, mas que tinha um tal de Baú da Mix – programa com músicas de um tempo em que eu não vivi, mas que me traziam uma nostalgia engraçada.

Como em toda a rotina milimetricamente calculada, as músicas também eram as mesmas, sempre com o momento anos 1980, geralmente com algo do Van Halen, início dos anos 1990, com Nirvana – que desde aquela época eu já não gostava –  e afins, até que chegávamos aos anos 1970, e ai o banco de trás da perua se transformava em máquina do tempo, sobretudo, quando tocava All My Love.

Quando era criança, não ouvíamos muito Led Zeppelin em casa. O que para muitos pode parecer um pecado terrível, para meu pai, sempre foi questão de gosto. Não que ele desgostasse, mas nunca era algo que estivesse entre os primeiros discos.

De volta à perua…

No meio do caminho, várias outras crianças iam entrando, por essa razão, o fundo era sempre o melhor lugar. Dava pra dormir, dava pra ficar em silêncio e, principalmente, dava pra ficar bem perto dos falantes. Foi assim que os conheci, no banco de trás da perua do Seu Roberto, seis e pouco da manhã, no “Baú da Mix‘.

All My love não é a minha música preferida, mas é daquelas que só ouço em raros momentos; as lembranças daquele tempo sempre vem fortes e extremamente certeiras, o que torna impossível ouví-la banalmente por aí. Aqueles eram dias estranhos, a escola, como todos sabem, eram um saco, acordar cedo era um saco, no entanto, o caminho entre uma coisa e outra, tornava tudo mais interessante.

Ouvi por algumas semanas a mesma música, sentindo aquela nostalgia das coisas que não vivi, sem nem ao menos saber o nome. Um dia, resolvi  perguntar para o meu pai, acho que cantei um trecho pra facilitar a identificação. “É Led”, ele disse, “uma puta banda”. Depois, me esqueci, mudei de escola e nunca mais encontrei o Seu Roberto. O tempo passou e ficou na minha cabeça que Led fazia uma puta música, mas tudo ainda muito desforme.

Um dia, porém, as coisas passaram a fazer mais sentido: havia uma banda e, nessa banda, havia um baterista fanático pelo Bonham. Ele tocava bem. Entendi, então, que os bons bateristas eram fãs do Bonham, que tocava no Led, que fazia um puta som. E toda a semana, lá estava eu, vendo os ensaios da banda em que o baterista tocava, ele e meu pai, que por acaso era o guitarrista. Os dois falavam muito dessas coisas de puta som e me diziam que eu tinha que ouvir o disco IV do tal do Led, a banda do Bonham. Foi o que eu fiz, esperando que lá tivesse aquela música que eu ouvia na perua do Seu Roberto. Não tinha, mas  gostei. Gostei muito e resolvi que era hora de procurar outro disco e mais outro e depois outro.

O baterista e meu pai tinham razão, era um puta som. Acho que foi assim que tudo começou.

Pensei nisso tudo quando vi o Robert Plant no palco, em 2012, que talvez tenha sido a perua do Seu Roberto que tenha me levado até ali. Naquele dia, ele não tocou  All My Love, mas, de repente, deixei uma lágrima escapar, já quase no final de Rock’N’Roll, porque ver aqueles olhos, que já viram tantas das coisas que eu sinto falta sem ter vivido, me fez pensar qual perua o fez chegar até ali.

Sobre a autora

Amanda Cipullo
11760115_10203186896352189_9001298901733721022_n
Editora de (e do) Casos, formada em publicidade. Jornalista por acaso; atriz e escritora por paixão.
Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que relata por aqui.

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